segunda-feira, 1 de julho de 2013

DE MESTRES E ALUNOS, UM FINAL ÉPICO PARA A COPA DAS CONFEDERAÇÕES



 (Foto Folha de São Paulo)


"O campeão voltou"! - cantava, em êxtase, os mais 70 mil torcedores no Maracanã, ontem, no jogo de encerramento da Copa das Confederações, entre Brasil e Espanha.

Menos, penso eu. Um pouco menos. Mas, sim: há um time vencedor sendo forjado na experiência de Luiz Felipe Scolari. Se vai ganhar a Copa do Mundo no ano que vem, já é outro o papo.

Então, vamos ficar no jogo épico, no jogo em que uma Seleção Brasileira meio desacreditada no início veio crescendo e deu uma aula aos antigos mestres. Ou foram os mestres a darem uma aula a pupilos que tinham se tornado mestres? Enfim, começa o futebol brasileiro a reencontrar-se consigo próprio, ao aliar criatividade, combatividade e vibração.

Confesso que venho seguindo - e as crônicas anteriores não me deixam mentir - o futebol jogado pelo Barcelona, espelho da Seleção Espanhola. Já disse, e repito, que era só questão de tempo para os treinadores de clubes e seleções começarem a descobrir um jeito de anular o toque de bola espanhol, o famoso "tic-tac", baseado na obsessão pela posse da bola e pela sufocação do adversário em busca de espaço.

E agora acrescento mais uma observação ao decantado estilo espanhol de jogar bola, antes de entrar numa breve análise do jogo final - que é o que interessa: em time que está ganhando, é preciso mudar, sim, para continuar ganhando. Ou seja: a Espanha é um time de uma nota só. Uma nota espetacular, como o samba de João Gilberto, mas não tem alternativa de esquema: ou é assim ou assim que eles jogam. E isso ficou claro no jogo contra o Brasil.

E então, vamos falar da Seleção Brasileira.

Os espanhóis não devem nunca, nem em seus piores pesadelos, ter imaginado que encontrariam uma Seleção Brasileira jogando como jogou a final: tocando bola, marcando em todo o campo, sufocando o adversário, variando as jogadas com criatividade, chegando com velocidade ao gol, enfim, fazendo a Espanha provar do próprio veneno, não a deixando esboçar as trocas rápidas de passe, os dribles desconcertantes e as infiltrações rápidas e inesperadas.

Pois foi assim que vi a Seleção Brasileira. Um futebol que começa a nascer da insistência na escalação de um time que parecia difícil, no começo, de dar a famosa "liga", de entendimento entre todos os jogadores, de entrega ao jogo, de estar ligada o tempo todo e, principalmente, com muito bom preparo físico.

E mais: jogadores que, individualmente, começaram a responder àquilo que se esperava deles: se estão na Seleção é porque são craques e, como craques, precisam jogar bem, exercer com confiança o seu trabalho e buscar entendimento tático no campo, de acordo com a concepção de jogo do treinador.

Enfim, não dá para dizer muito mais de um jogo que deverá marcar a história do Maracanã, um estádio renovado em suas glórias e decepções, que voltou a ter uma torcida apaixonada por sua Seleção. Agora, é esperar que o trabalho iniciado evolua, para que, com esses craques como base, possamos ter uma Seleção Brasileira digna de suas melhores tradições. Também não vou destacar as individualidades, os jogadores que brilharam, porque estão todos eles em todas as manchetes de todos os jornais, já que se fizeram respeitar pelo brilhantismo com que atuaram nessa final da Copa das Confederações da FIFA, neste ano de 2013, véspera de uma Copa do Mundo que promete ser inesquecível para o povo brasileiro.



Serviço:

COPA DAS CONFEDERAÇÕES  DA FIFA 2013 - JOGO FINAL



Brasil 3x0 Espanha



Local: Estádio do Maracanã, Rio de Janeiro, Brasil

Público: 73.531 torcedores

Árbitros: Bjorn Kuiper, Sander Van Roekel e Erwin Zeinstra, da Holanda.



Brasil:

Júlio César, Daniel Alves, Thiago Silva, David Luiz, Marcelo, Luiz Gustavo, Paulinho (Hernanes), Oscar, Hulk (Jadson), Neymar, Fred (Jô).

Técnico: Luiz Felipe Scolari

Gols: 

Fred (2 min. do primeiro tempo e aos 2 min. do segundo tempo); 

Neymar (44 min. do primeiro tempo).



Espanha:

Casillas, Arbeloa (Azpilicueta), Sérgio Ramos, Piqué, Jordi Alba, Busquets, Iniesta, Xavi, Pedro, Mata (Navas), Torres (Villa).

Cartão vermelho: Piqué (22 min. do segundo tempo)


Técnico: Vicente del Bosque

segunda-feira, 27 de maio de 2013

NEYMAR NO BARCELONA






Há mais de um mês, detectei alguns sinais preocupantes no jovem atacante do Santos: primeiro, deixou de fazer penteados estranhos; segundo, seu futebol sumiu dos gramados. Pensei: algo está ocorrendo.

E o que ocorria era a negociação para sua transferência para o Barcelona. Uma negociação complexa, cheia de detalhes. Com um agravante: assim que houve uma pequena fumaça de que ele fecharia com o clube catalão, uma proposta mais polpuda veio do rival Real Madrid.

Mas, há muito Neymar manifestara o desejo de ir para o Barça. Por várias razões, até mesmo uma de ordem íntima, a grande admiração que o craque tem por essa equipe. As demais, todas, de ordem prática, muito prática.

A estrutura do Barcelona, sem dúvida, é uma das melhores do mundo. Seu marketing é profissional e envolve ações que nenhum outro clube tem. E mais: permite ao jogador usufruir das vantagens pecuniárias de sua imagem, o que o torna ainda mais atraente. Tem tradição em lidar e contar em suas fileiras com craques brasileiros de renome, desde Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo. E mais: tem o melhor jogador do mundo, Messi.

A minha primeira impressão é que Messi é uma das chaves da transferência.

Vou tentar explicar.

Jogar ao lado do melhor jogador do mundo na atualidade tem uma atração toda especial para Neymar, claro. Pode crescer como atleta e como profissional. E tem algo fundamental nisso, para os planos do ex-santista e do próprio Barcelona: Messi é o melhor, mas não tem carisma. Sua imagem é baseada apenas nos seus feitos, não na sua personalidade  - retraída e tímida. Neymar, ao contrário, não precisa de muito para atrair a atenção: seu sorriso, suas palavras bem escolhidas, sua forma de atuar e até de comemorar seus gols, de viver e ser jovem atraem de forma extraordinária a atenção de todos. Tem um carisma difícil de encontrar, em qualquer esporte. É assim comparável ao de Ayrton Senna.

No Barcelona, portanto, Neymar não vai ter a competição - nesse item - de Messi. Muito ao contrário. Messi poderá até continuar a ganhar os prêmios de melhor do mundo por mais algum tempo, sem que isso incomode o jovem, porque ele sabe que, em termos de marketing, vai ganhar rios de dinheiro e vai dar rios de dinheiro para o Barcelona com sua imagem. E seu momento de ser o melhor do mundo chegará, com certeza.

Já no Real, bateria de frente com Cristiano Ronaldo.

E o Barcelona sabe muito bem disso. Daí sua obsessão em contratar Neymar. Daí a obsessão de Neymar em ir para o Barcelona.Todo o departamento de marketing do clube vai trabalhar a todo vapor para tornar a marca Neymar - associada ao Barça - a maior marca do mundo. São esses os planos. Se derem certo.


E só não dará certo, se Neymar não conseguir mostrar seu futebol. Mas, quem, em sã consciência, imaginaria tal coisa?

quarta-feira, 24 de abril de 2013

POIS, É: E O BAYERN DE MUNIQUE NÃO SÓ DERROTOU O BARCELONA...









Quando o Santos FC perdeu o Mundial de Clubes para o Barcelona, há dois anos, os santistas falaram em "aula de futebol". Dos mestres, claro, do Barcelona.

Agora, quem recebeu uma aula de futebol foi o próprio Barcelona, numa partida memorável do Bayern  de Munique. Os alemães não só anularam todas, absolutamente todas, as jogadas de Messi e companhia, como ainda enfiaram quatro gols na, então, desesperada defesa espanhola.

Comprova-se assim a velha teoria do futebol, assinalada no artigo anterior: não há equipe imbatível. E mais: em time que está ganhando, é, sim, muitas vezes, necessário mexer. Para continuar ganhando.

O esquema do Barcelona, por mais incrível que ainda continue sendo, tanto como modelo de bom futebol, quanto pela ainda excelência de seus jogadores, parece que começa a entrar em declínio, como se fosse aquilo que se chama em engenharia de desgaste de material.

Até agora, todos sabiam e ainda sabem como joga o Barcelona: posse de bola e troca rápida de passes, envolvendo a equipe adversária em seu campo. Agora, muitos já sabem como anular o Barcelona. E o Bayern mostrou isso à exaustão: deixou que a equipe catalã tocasse a bola, mas não a deixou aproximar-se de sua área. Com isso, anulou as infiltrações de Messi, a inteligência de Xavi e Iniesta, os lançamentos de Daniel Alves etc, etc, etc.

E mais: de posse da bola, não só contra-atacava com perigo, levando pânico aos defensores adversários, como também tocava a bola com inteligência e disposição. O futebol alemão, cujas características sempre foram a força e a disciplina tática, parece estar ganhando qualidade e criatividade.

Claro que essa evolução muito se deve à presença de muitos estrangeiros em suas equipes. Mas deverá refletir na própria Seleção Alemã que sempre começa uma Copa do Mundo como uma das favoritas e tem chegado muitas vezes à final e, agora, para a próxima Copa, virá com certeza como a mais séria candidata ao título.

E o Barcelona que coloque as barbas de molho: gênios também, às vezes, jogam mal, como Messi nessa partida, e renovação é uma palavra chave no futebol. Renovação não só de elenco, mas também de esquema e de padrão de jogo. 

Professores também precisam de uma boa reciclagem.



Serviço:

BAYERN 4X0 BARCELONA

Local: Munique, Alemanha; 23/4/2014

Competição: primeiro jogo da semifinal da Taça dos Campeões, da Europa.

BAYERN: Neuer, Lahm, Boateng, Dante e Alaba; Javi Martinez e Schweinsteiger; Robben, Thomas Müller (Pizaro) e Ribéry (Shaquiri); Mario Gomez (Luiz Gustavo)
Técnico: Jupp Heynckes

BARCELONA: Valdés, Daniel Alves, Bartra, Piqué e Jordi Alba; Busquets, Xavi e Iniesta; Pedro (Villa), Messi e Aléxis Sanchez.
Técnico: Tito Vilanova.

Gols: Thomas Müller (25 do primeiro tempo e 36 do segundo); Mario Gomez, aos 4 e Robben, aos 28 do segundo tempo.

segunda-feira, 18 de março de 2013

TENTANDO DECIFRAR O BARCELONA










Para os técnicos adversários, o Barcelona se parece com a esfinge: "DECIFRA-ME OU TE DEVORO".

E quase todos têm sido devorados. Impiedosamente. Pela máquina de jogar futebol chamada FC BARCELONA.

Não dá para explicar o futebol desse time, mas dá para termos algumas pistas que levem ao entendimento de como ele joga.

Primeiro, duas obviedades: a defesa é seu calcanhar de aquiles, ou seja, não tem uma defesa que se possa considerar que esteja no mesmo nível dos demais setores do time: os dois zagueiros, jogue quem jogar, fazem o chamado arroz-com-feijão e nada mais. Segunda obviedade: isso não tem muita importância para os resultados, pelos motivos que vamos tentar levantar a seguir.

O Barcelona joga em bloco. Isso também é óbvio. Ou seja, ataca com sete ou oito e, às vezes, todos os dez jogadores estão no campo adversário, inclusive os dois zagueiros, posicionados próximos ao círculo central, e se defende com onze: todos, absolutamente todos os jogadores do Barcelona estão aptos a defender, a roubar a bola do adversário, mesmo os atacantes de ofício que, mais impressionante, desarmam sem fazer as faltas que quase sempre os atacantes fazem quando partem para o desarme.

Esse é o primeiro nó górdio do sistema de jogo do Barcelona. Algo muito difícil de ser obtido. E fundamental para a equipe. Porque é essa capacidade de desarme que impede os contra-ataques adversários que, quando logram ocorrer, são quase sempre mortíferos.

Como fazer que atacantes e meio-campistas habilidosos também consigam jogar como zagueiros quase perfeitos? Vamos responder a essa e a outras questões logo abaixo.

O segundo nó górdio do sistema de jogo do Barcelona é a capacidade de atacar em bloco, trocando passes, sem afobação, até envolver completamente o adversário em seu próprio campo, de tal forma que, muitas vezes, vemos quatro ou cinco atacantes dentro da área adversária, sufocando o outro time, não deixando espaço para que ele jogue. Ou seja, o domínio territorial é fundamental para a equipe do Barcelona. E o time sabe fazer isso como nenhum outro na história do futebol. E quando perdem a bola,  recuperam-na de forma espantosa, rapidamente,  transformando-se todos em defensores avançados, através de um sistema de  marcação que o ataque exerce sobre a defesa adversária de forma quase automática. E quando recuperam a bola, o time adversário, que se colocava em posição de saída para o ataque, é surpreendido num contra-ataque rápido que quase sempre termina em gol.

O Barcelona inventou o contra-ataque a partir do ataque!

Mas, ainda há mais: atacado, coisa que é rara, mas acontece, claro, durante uma partida, logo se percebe que todos, absolutamente todos recuam para marcar. E como sabem desarmar sem fazer faltas, propiciam um grau de cobertura à defesa que nenhum outro time obtém. Além de, claro, estarem aptos a exercerem com perícia a mais antiga e mortífera arma do futebol: o contra-ataque, agora a partir da defesa, da forma mais tradicional. Eu disse tradicional? Nada é comum no Barça. Porque o contra-ataque conta com a excelência do passe, que todos eles têm, e com a rapidez dos deslocamentos, treinados como se fossem um balé da fórmula 1 com a precisão de acrobatas de circo.

Como e por que eles conseguem tudo isso? Calma, que já vamos tentar responder.

O terceiro nó górdio do Barcelona é também óbvio: a excelência de seus jogadores. Além de um fenômeno (nem preciso citar seu nome), há na equipe pelo menos quatro ou cinco jogadores fora de série, e os demais são craques ou bons jogadores, muito bons jogadores, mesmo os zagueiros e o goleiro, claro.

Como um time de futebol pode contar com tantas estrelas e ter ao mesmo tempo um jogo tão solidário, em que todos atacam e todos defendem?

Vamos tentar responder as questões levantadas. E as respostas não são, assim , tão difíceis. O difícil é que, ao tentar respondê-las, nós vamos chegar a algumas conclusões  que... espere, vamos deixar as conclusões para o final, não é?

Estrutura do clube. Dinheiro, claro. Mas não só: dinheiro e inteligência. Conta o Barcelona com uma verdadeira academia de revelação de talentos. Tanto que, do time geralmente titular, há apenas um jogador que não é formado totalmente nas bases (por acaso, um brasileiro, o Danel Alves). E a escola de bola do Barcelona parece ser bastante rigorosa em seus princípios, isto é, naquilo que um jovem jogador deve aprender para se tornar um craque, que consiste basicamente em:

1. conhecimento do jogo - parece-me que todos aprendem, e muito bem, primeiro as regras do jogo e como usá-las o tempo todo a seu favor e a favor da equipe; segundo, aprendem táticas de jogo, o que os leva a perceber o jogo do adversário e também tirar proveito disso em campo, quase independentemente do treinador;

2. treinamento dos fundamentos do futebol, aquilo que é básico, mas que nem todo técnico das bases consegue passar com clareza para seus pupilos: domínio de bola, dribles curtos, passe, deslocamentos, lançamentos, cobranças de falta, de escanteio e de laterais, posicionamento em campo etc, etc, etc;

3. senso do coletivo: não pode haver nenhum drible, nenhum deslocamento, nenhum passe, nada, que não seja pensado em termos de coletivo, em termos de relação com o companheiro de equipe, numa introspecção total do que seja conjunto, isto é, todo o talento individual - que, com certeza, é incentivado - deve estar subordinado de forma até meio franciscana (humilde - não gosto do termo, mas é o que parece mais próximo da realidade deles, dos jogadores do Barcelona) ao conjunto, ao objetivo do grupo;

4. treinamento, treinamento e treinamento: tenho a impressão que a repetição de esquemas, triangulações, deslocamentos, dribles, passes etc ocorre à exaustão (aliás, o ex-técnico Pep Guardiola ressaltou isso, uma vez); e mais: tenho a impressão de que o os treinos são coreografafos, como um balé, e repetidos até que aquilo que parece difícil se torne fácil, muito fácil, como o fazem os artistas de circo, de teatro, ou os atletas de alta performance; é só observar que os jogadores sempre sabem o que fazer com a bola, durante o jogo, tocam de primeira, driblam sempre de forma mais ou menos igual, e conduzem a bola sempre muito próxima do pé (detalhe que complica a marcação e que poucos jogadores fazem e para o qual poucos técnicos atentam);

5. preparação física e alimentação: dois itens que se interralacionam e são, embora óbvios, extremamente importantes para a boa preparação dos jogadores, inclusive com o respeito às características de cada um, e não com a finalidade de se tornarem todos gladiadores; basta observar que os jogadores mais hábeis não são tipos atléticos, altos, fortes; e isso é muito importante, porque impede que se machuquem com facilidade;

6. preparação psicológica, ou algo parecido: percebe-se que os jogadores do Barcelona não têm um desgaste físico tão grande quanto seus adversários (acredito que eles até corram menos, porque os deslocamentos são todos muito bem dosados e combinados), mas o desgaste mental, ou psicológico, deve ser formidável, devido a que esse estilo de jogo - de domínio territorial - exige um nível altíssimo de concentração o tempo todo; então, a recuperação da equipe, após os jogos, deve ser algo cuidadosamente planejado e executado, de alguma forma clara ou sutil.

A excelência do futebol apresentado pelo Barcelona está, portanto, ligada a uma série de detalhes que não são nem pouco pequenos nem menos importantes, que fazem a diferença entre um time comum e esse atual grupo de jogadores, reunidos por uma contingência da vida, por uma formação excelente, e por algo que tenho ressaltado em meus comentários: a inteligência. Dificilmente, esse sistema de jogo, com tudo o que foi exposto acima, conseguiria manter-se durante tanto tempo,se não contasse com um grupo de jogadores tão inteligentes para o futebol, como esses. Isso não quer dizer que, com a substituição das "peças", coisa que o tempo obriga a fazer, o Barcelona não consiga manter um excelente futebol. Outra geração poderá até manter um nível alto, mas vai difícil fazer exatamente a atual geração faz e joga hoje.

Enfim, há um último e fundamental "detalhe": é um time que joga junto há muito tempo, tempo demais em termos de futebol, quando vemos as equipes de sucesso se desfazerem de um campeonato para outro e se remontarem até mesmo, como acontece no Brasil, entre um turno e outro de um mesmo certame.

Conclusão: o FC Barcelona não é, absolutamente imbatível (tem perdido alguns jogos importantes e até para times de menos categoria), porque o futebol é o único dos esportes coletivos em que ocorrem "zebras", isto é, times de pouca expressão às vezes conseguem ganhar de equipes poderosas e porque há desgaste e desfastio e má fase (toda equipe passa por isso) e porque, de vez em quando, um técnico adversário vai conseguir anular o Barcelona taticamente e porque não existiram, não existem e, felizmente, nunca vão existir equipes imbatíveis. Mas ganhar do atual Barcelona é dificil, muito difícil.

Os poucos que o conseguem ou conseguirem não ser triturados e devorados  que comemorem bastante!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

NÃO, NÃO HÁ FATALIDADE QUANDO SE MORRE NUM CAMPO DE FUTEBOL








O Corinthians, campeão da Taça Libertadores da América, vai jogar nas alturas da Bolívia, em Oruro, a 3700 m acima do nível do mar. Um jogo de risco e de expectativas, pela estreia.

Duzentos torcedores corintianos acompanham o time na jornada épica. Nada de mais que esses chamados "loucos pelo time" tenham enfrentado as agruras da longa viagem para prestigiar aqueles que eles consideram heróis, depois de uma vitória quase quixotesca, em campos do Japão, pelo título mundial interclubes.

Apenas um detalhe: entre esse duzentos "loucos", há alguns que levam a sério o epíteto da torcida, além de serem acabados imbecis frequentadores de campos de futebol. E são esses idiotas que roubam a protagonia do jogo que devia se limitar às quatro linhas do campo: para comemorar o gol de seu time, aos cinco minutos do primeiro tempo, soltam rojões e sinalizadores (que são proibidos) e mais: dirigem um desses sinalizadores para a torcida adversária. Um moleque de quatorze anos, que ali fora para acompanhar, talvez pela primeira vez, o seu time; um moleque boliviano, morador distante quase duzentos quilômetros, que para ali viajara em busca da emoção de uma partida de futebol, é atingido no olho direito pela estupidez do "louco" que estava na torcida adversária. E morre.

Não. Não se pode falar de fatalidade. Fatalidade é terremoto, enchente, tufão... Fatalidade é estar onde não se devia estar. Mas, um campo de futebol não é lugar onde não devia estar, quando o seu time do coração está em campo. E campo de futebol não é lugar para se morrer, principalmente se você é apenas um jovem torcedor. Falar de fatalidade diante de tal estupidez é aceitar como normal que uma banda de música solte rojões dentro de uma boate fechada com mais de mil pessoas e provoque um incêndio que faz mais de 340 vítimas. Falar de fatalidade é pensar que não há responsáveis por atitudes absurdas, improváveis e estúpidas. Porque há, sim, culpados tanto na tragédia de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, quanto na morte desse garoto boliviano. Se há desproporção de vítimas, a dor é a mesma quando se perdem vidas, não importa quantas, por motivos que poderiam ser evitados.

Então, quem são os culpados nesse episódio do sinalizador?

Vamos ter que fazer um histórico de eventos e situações e criações humanas que beiram o absurdo e a insensatez, ao longo de muitos, muitos anos. Comecemos pelos culpados mais amplos, para chegarmos aos culpados específicos:

Primeiro, a mídia. Sim, meus amigos, a mídia. Sempre ela, a poderosa mídia, que interfere na nossa vida em aspectos que ela mesma não tem controle, ou finge não ter controle, porque há todo um jogo de cena, de esconde-esconde, de gritinhos histéricos de liberdade de opinião e outras cretinices que obstruem o verdadeiro significado das palavras.

Por que a mídia é culpada, num incidente desse tipo? Vejamos.

É sim, criação da mídia, a ideia da mítica torcida fanática, "sofredora" por anos e anos sem um título, da torcida "fiel" que se transforma em "nação corintiana", como se torcer para um clube estivesse no mesmo nível de emoção ou de pertencimento a um País ou a um grupo étnico. Tudo bobagem, para vender jornal, para produzir notícia, para ganhar dinheiro. Nenhum time de futebol devia poder provocar o mesmo tipo de paixão que se tem por causas muito, muito mais nobres. Um time de futebol é só um time de futebol. Que perde e ganha, como todas as equipes de qualquer esporte coletivo.

E por que se criou essa "mística", esse fanatismo? Porque a torcida corintiana começou a crescer, a dar espetáculo, a atrair a atenção. E houve aquela famosa "invasão" corintiana ao Maracanã, há alguns anos, quando a torcida tomou conta do então maior estádio de futebol do mundo, atrás de uma vitória de seu time. O monstro - que já estava aí - foi retroalimentado pela mídia, que incensou e incentivou sempre esse tipo de comportamento, porque descobriu que escrever sobre o Corinthians, falar sobre o Corinthians, produzir filmes ou material para a televisão sobre o Corinthians atrai público, atrai leitores, atrai, consequentemente, fama e dinheiro. E a mídia vive de seguidores, de patrocinadores, de dinheiro, enfim. E o monstro, incentivado pela mídia, tem crescido e ganhado epítetos, desde o termo "fiel", que remete ao fanatismo religioso, até o mais recente, "loucos". E os "loucos" fazem esse tipo de coisa, que é lançar um mortífero sinalizador contra adversários anônimos e completamente desconhecidos, já que a torcida do time adversário - o San José - não tem, nunca teve e provavelmente nunca terá qualquer motivo de desavença ou de hostilidade em relação à torcida ou ao time de futebol chamado Sport Club Corinthians Paulista.

Segundos culpados: a diretoria do clube. Ou melhor, as diretorias de todos os clubes e, por extensão, todos os dirigentes de futebol, desde as Federações estaduais até as poderosas CBF e FIFA.

Sempre condenei a existência, por absurda, das chamadas "torcidas organizadas". São um bando de baderneiros que se unem não exatamente para torcer para um clube, mas para provocar o adversário, para realizar enfrentamentos com outras torcidas, para tomar lugares nos estádios de pessoas que querem torcer com tranquilidade. E mais: usam o nome do clube - que é um patrimônio privado e valioso - para se estabelecer como pretensas sociedades que não têm nenhuma base jurídica, mas se apropriam também dos símbolos

acha dona desses bens e que só provocam - como todos sobejamente  o sabem - o temor por onde passam, em suas investidas contra adversários, contra os bens públicos, provocando ferimentos e até mortes, muitas mortes. E os clubes - no caso, o Corinthians - são culpados, sim, por terem sido inicialmente omissos em relação ao surgimento dessas torcidas e, depois, por até mesmo incentivar sua existência, dando-lhes voz em decisões internas e patrocinando-as com dinheiro, ingressos e privilégios nos estádios. São responsáveis, sim, pela alimentação e pelo crescimento dos monstros, sob os olhos complacentes dos dirigentes máximos do futebol, que poderiam, sim, baixar normas que levassem a que os dirigentes dos clubes coibissem a existência das torcidas organizadas ou que, pelo menos, não as incentivassem.

Terceiros culpados: o poder público. Principalmente o Ministério Público e os órgãos de Segurança Pública.

O Ministério Público já fez várias denúncias contra a existência dessas hordas bárbaras, mas não teve peito de levar adiante medidas que as pusessem totalmente fora da lei ou, melhor, que reconhecessem que seu funcionamento não tem respaldo legal. Quando chega a hora de realmente criminalizar o comportamento dessas torcidas, sempre se faz uma conta de chegar, o famoso "termo de ajustamento" e tudo continua igual. Os vândalos seguem sua sina de vândalos, sob o olhar às vezes conivente, às vezes furibundo dos órgãos de Segurança Pública, ambas as atitudes condenáveis, porque ou não reprimem de forma civilizada aquilo que não respeita a civilização ou o fazem de forma incivilizada, ou seja, descendo o cacete, como se a violência das hordas justificasse a violência policial. E o monstro, tocado em seus brios guerreiros, alimenta-se da violência, para, através do desafio aos órgãos repressores, arrebanhar mais indivíduos violentos para as suas fileiras.

Há, agora, os responsáveis específicos do evento: primeiro, a polícia boliviana. Sim, não vou aliviar a responsabilidade policial, que devia ter revistado com mais rigor - se é que houve revista - a todos os torcedores, para impedir que entrassem no estádio com objetos perigosos, como os tais sinalizadores. E finalmente, os próprios indivíduos que entraram com esse tipo de petardo em campo, quando sabem - e não podem se fazer de inocentes, porque nada têm de inocentes - que esse tipo de material se constitui, na verdade, numa arma de ataque, muito mais do que um objeto de uso em comemorações de alegria. Tinham, sim, segundas intenções. Entraram no estádio com a ideia de que iriam não para uma partida de futebol, mas para uma batalha com a torcida adversária, em muito maior número e, portanto, muito mais perigosa, num tipo de raciocínio ilógico de que todo adversário é inimigo. E inimigo merece... morrer!

Portanto, já que não se podem punir os responsáveis longínquos, porque não há como definir atos específicos, devem ser os torcedores severamente penalizados, para que não se repitam atos como esses. E também ao clube, ao Corinthians, de acordo com as normas da Federação Latino-americana de Futebol, devem ser impostas sanções severas, já que os clubes são corresponsáveis pelas atitudes de seus torcedores.

E o que mais?

Ah, sim, há muito o que fazer: buscar formas de amenizar o fervor místico de torcedores imbecilizados pelo fanatismo, através de campanhas educativas, em todos os meios de comunicação, coisa que se devia impor à mídia, como forma de cobrar dela a parte de responsabilidade que lhe cabe, aos educadores, aos formadores de opinião. E também, principalmente, acabar de uma vez por todas com a existência dessa praga chamada "torcida organizada". Processar seus dirigentes, por danos à imagem dos clubes, ao patrimônio público e ao consumidor em geral, por impedi-lo de assistir com tranquilidade aos jogos de futebol; fechar e lacrar suas sedes e impedir que se reúnam e que voltem a existir. E os que praticam ou praticaram violência em estádios de futebol ou por causa do futebol sejam banidos, banidos para sempre, dos campos, com a obrigação de se apresentarem numa delegacia de polícia sempre que houver um jogo de seu time.

Enfim, há muito o que fazer, para que volte a paz ao futebol. Medidas, medidas práticas, efetivas, não apenas promessas ou passeatas em favor da paz ou coisas do gênero. Chega de paliativos, chega de conivência.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

FUTEBOL É ARTE, MENOS PARA A FEDERAÇÃO PAULISTA







Gosto do futebol bem jogado, claro. E quem não gosta?

De times que se enfrentam de igual para igual. Que lutam, que se esforçam.

De jogadores que fazem jogadas bonitas e gols idem. Com firulas ou sem firulas. Mas jogos bem jogados.

Não é o que pensa a Federação Paulista de Futebol.

Não sei se é mania de grandeza de paulista, mas tudo é muito exagerado. Honestamente, num Estado como São Paulo, cabem vinte grandes times?

Um campeonato estadual com vinte times, para mim, é absoluto exagero. E ainda mais com uma fórmula absurda de todos contra todos, num jogo só! Ou seja, se o time A perde para o B, não tem chance de recuperar o ponto perdido. Tem que ir em frente. E isso acontece principalmente com times grandes que estão disputando, por exemplo, a Libertadores e acabam jogando com o time reserva ou com os famosos mistos. O que rebaixa ainda mais a qualidade do futebol.

Então, fica assim o campeonato paulista: dezesseis times pequenos, muitos deles não jogariam nem na várzea, de tão ruins, contra os quatro grandes, São Paulo, Corinthians, Palmeiras e Santos. Como é um jogo só, esses times pequenos jogam o jogo de sua vida: ou se trancam, num ferrolho de doer, ou partem para a pancadaria ou fazem as duas coisas, o que é o mais comum, sob o olhar complacente de juízes que acham que futebol é coisa de macho e que tem que ter porrada.

Quando jogam entre si, esses pequenos também se matam, porque jogam não para ganhar o campeonato (muito poucos teriam condição para isso), mas para não cair.

Então, o campeonato paulista não é uma competição em que vence o melhor: é uma guerra para ver quem não cai para a segunda divisão.

Consequência: jogos ruins, em sua absoluta maioria.

O campeonato paulista, ma minha modesta opinião, deveria ter no máximo doze clubes. E uma segunda divisão mais forte, mais prestigiada. Ao final, cairiam dois times e subiriam dois.

O nível da competição subiria. Os jogos seriam disputados em turno e returno. O que movimentaria muito mais as torcidas, principalmente as do interior, que teriam possibilidade de ver todos os times da capital e as torcidas da capital teriam oportunidade de conhecer bons times do interior.

Além disso, com uma competição mais acirrada, os times do interior que jogassem a primeira divisão teriam que se reforçar. E esse reforço implicaria duas possibilidades, ambas bastante simpáticas: abriria mercado para craques mais velhos (dois ou três, em cada time estaria de bom tamanho) e procuraria revelar bons jogadores da região, o que não tem acontecido. Principalmente bons jogadores de uma segunda divisão (e talvez até terceira) mais forte e mais disputada.

Por que craques mais velhos? Porque dariam mais estabilidade aos times e, principalmente, funcionariam como exemplo e lição para os mais jovens. Nada melhor do jogar com quem sabe, para aprender a jogar melhor.

Enfim, está aí a pior fórmula de campeonato que eu já vi. Repetida mais uma vez. Para tristeza das torcidas , que são obrigadas a assistir a uma sucessão de jogos ruins, para classificar oito finalistas que, em duas chaves de quatro, vão levar a disputa da final entre os dois melhores - quase sempre os mesmos times da capital, sem nenhuma surpresa. 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

2013: ANO DECISIVO PARA A SELEÇÃO BRASILEIRA






A CBF optou pelo mais do mesmo, ou seja, escolheu Luis Felipe Scolari para técnico da seleção. Não teve coragem de buscar a inovação ou a criatividade de Pep Guardiola, por exemplo.

E Filipão era e é a escolha mais  óbvia, entre os técnicos brasileiros, por seu histórico e por seu carisma.

Carisma e histórico. Indiscutivelmente, será o técnico que não deixará de provocar polêmica, com suas atitudes, com suas palavras, mas principalmente, com sua filosofia de "grupo fechado", a famosa "família Scolari", como forma de motivação dos jogadores. Suas conquistas - principalmente a da Copa na Coreia/Japão - estarão na cabeça de todos, principalmente dos jogadores. Por falta, portanto, de incentivo, de vibração e de experiência - tudo o que Mano Menezes não tinha -  é que a Seleção Brasileira não deixará de ganhar a Copa do Mundo.

Será, isso suficiente, no entanto?

Não há dúvida de que Felipão tem competência. Mas terá, hoje, a mesma competência de dez anos atrás? Mudou o futebol, mas Felipão também mudou? Ou suas concepções táticas permanecem as mesmas? Não vale a "experiência" como técnico do Palmeiras, porque foi uma passagem atípica por um clube em crise técnica, tática e política, com um elenco que ele não escolheu e que não se articulava bem em campo, para produzir um futebol pelo menos solidário.

Se for o mesmo Felipão de 2002, a torcida brasileira não terá muito o que esperar. A Seleção será, com certeza, uma seleção de entrega, de  jogo  forte e  solidário, mas não terá técnica e tática para derrotar adversários poderosos, como a Espanha, por exemplo. E a Copa do Mundo não ficará aqui, com certeza, sem necessidade de nenhum "maracanazo".

E o pior: estrearemos na Copa do Mundo sem que a seleção treinada por Luís Felipe Scolari tenha oportunidade de testar sua força, seu entrosamento, sua capacidade de superação, já que não estaremos disputando as eliminatórias. Só a Copa das Confederações não é suficiente para moldar um time vencedor. 

Enfim: só nos restará torcer para que, desta vez, jogando em casa, a Seleção Brasileira tenha sorte, muita sorte, no sorteio dos adversários, nas dificuldades das demais seleções, porque a história nos diz, com inúmeros exemplos, que  nem sempre o melhor time vence uma Copa do Mundo.

domingo, 16 de dezembro de 2012

MUNDIAL DE CLUBES: VENCEU A RETRANCA, PERDEU A RETRANCA




Técnicos perdem jogos. Técnicos ganham jogos.

A final do Mundial de Clubes, no Japão, neste domingo, 16 de dezembro de 2012, tem dois personagens emblemáticos:  Rafael Benítez, o contestado técnico do Chelsea, e Tite, o estrategista do Corinthians.

Rafael Benítez. Os torcedores do Chelsea não gostam dele. E podem ter razão. Quando assisti à partida do Chelsea com o Monterrey, na semifinal do Mundial, fiquei impressionado com o toque de bola e a leveza do time. Chegava fácil à defesa mexicana e só não fez cinco ou seis, por azar, má pontaria, defesas do goleiro, enfim, coisas do futebol. Contra esse Chelsea, pensei, o Corinthians terá pouca chance. No entanto, não foi esse o time que entrou para jogar a final. Ele trancou o time, com a saída do Oscar, o jovem e talentoso meia brasileiro, e o recuo de David Luíz de novo para zaga. Certo, entrou Ramires, mas o esquema era nitidamente defensivo. Seria um jogo de defesa contra defesa. Mesmo assim, o Chelsea até jogou melhor o primeiro tempo, perdeu gols por defesas extraordinárias do goleiro corintiano. Mas não era o time criativo, solto, veloz e perigoso de antes. Não teve aquele mesmo ímpeto. Enfim, deu no que deu.

Tite. O treinador corintiano é um pragmático. Soube armar o time aproveitando ao máximo a característica de cada jogador. Não tem um fora-de-série, aquele jogador que desequilibra e preocupa o adversário, mas conta com um bom elenco, encabeçado por um volante que sabe atacar, Paulinho, e dois jogadores muito inteligentes, Émerson e Danilo. Quando digo que Tite é pragmático, uso o adjetivo em lugar de "retranqueiro", que é quase isso, ou é isso o que ele é. No seu Corinthians não há espaço para jogador que não se desdobre em, primeiro, marcar e, só depois, atacar. O Corinthians é o campeão do 1x0. Toma pouquíssimos gols e também faz poucos gols. Porque sabe, como poucos, controlar a partida, mesmo quando aparentement acuado. Tite montou um time de guerreiros com esquema bem definido de atuação de cada um. Não há muito espaço para improviso. E os gols quase sempre nascem de jogadas ensaiadas, repetidas à exaustão. E, quando faz um gol, sabe segurar o adversário.

A final do Mundial de Clubes só teve uma surpresa (que não chega a ser uma grande surpresa): a excelente atuação do goleiro Cássio. Que, nos momentos decisivos, segurou os poucos momentos de ímpeto do Chelsea. Sem dúvida, o melhor jogador da partida.

Ao final, venceu a retranca do Corinthians - que é sua vocação e seu jeito de jogar, sem nenhuma novidade tática ou técnica - contra a retranca mal ajambrada de um time que se apresentou com um jeito na semifinal e não teve coragem - coisa do Benítez - para enfrentar o Corinthians do mesmo modo como enfrentou o Monterrey. Por isso, ganhou o primeiro, com o seu jeito de sempre - com um gol chorado, mas trabalhado - e perdeu o segundo, por falta de ousadia: quando o garoto Oscar entrou, já não podia fazer mais nada.

O Corinthians não é um grande time, mas é, sim, um grande campeão.

Parabéns ao Tite, parabéns aos jogadores, parabéns à torcida que enfrentou as longas horas de viagem e o frio do Japão, para se ver recompensada, se não por dois grandes jogos, mas pelo menos por duas vitórias consagradoras, ambas por 1x0, como sempre.

Serviço:

CORINTHIANS 1 X 0 CHELSEA

Gol: Guerreiro, de cabeça, aos 23 minutos do segundo tempo.

Local: Yokohama, Japão (Nissam Stadium)

16.12.2012

Juíz: Cuneyt Cakir

Corinthians:

Cássio, Alessandro, Chicão, Paulo André, Fábio Santos, Ralf, Paulinho, Danilo, Jorge Henrique, Emerson (Wallace), Guerreiro (Martínez). Técnico: Tite.

Chelsea:

Cech, Invanovic (Azpilicueta), Cahill, David Luiz, Ashley Cole, Lampard, Ramires, Moses (Oscar), Mata, Hazard ( Marín), Fernando Torres. Técnico: Rafael Benítez.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

DEPOIS DE MANO MENEZES...







Quando parecia que ganharia uma sobrevida até a Copa das Confederações, Mano Menezes foi defenestrado do cargo de técnico da Seleção Brasileira, após perder para a Argentina, com um time só de jogadores que atuam no País.

Era bola cantada que Mano não chegaria à Copa do Mundo. Todos conhecem suas deficiências e dificuldades no comando da Seleção: o esquema de jogo, ou padrão, como queiram, mal estava esboçado. Dava até um alento: talvez até começasse a funcionar. Caiu antes. Foi um pouco tarde, mas antes tarde do que depois do desastre.

E agora?

Bem, há vários candidatos ao cargo. E são os de sempre: Scolari, Muricy, Luxemburgo e, agora, um novo postulante: Tite.

São todos conhecidos. São todos testados em clubes e até na Seleção, como o Luiz Filipe (campeão do mundo), com esquemas de jogo mais ou menos previsíveis. A mim, não empolgam. Será o mais do mesmo, se um deles for o escolhido.

E, então? Quem poderia dar à Seleção Brasileira aquela chama que todos querem e recuperar seu prestígio? Jogadores não faltam. Aliás, Seleção é assim: o técnico tem de ter a competência para convocar os jogadores certos para seu esquema de jogo e não para ficar fazendo longas experiências, como fez o Mano.

Telê Santana é o espelho. Não ganhou nada, na Seleção, mas encantou o mundo. Parreira redesenhou o esquema de Telê, reforçando o seu pior lado, o da retranca. Não jogou bonito, mas foi campeão do mundo em 94, com um time que tinha tudo para encantar, mas que jogou de forma prática, para não dizer medrosa.

Há, hoje, somente um técnico que, confessadamente, utiliza as concepções de Telê, aperfeiçoando-as e realmente encantando o mundo com um futebol ao mesmo tempo prático, envolvente e extremamente criativo. Um técnico à brasileira que poderia trazer de volta a magia de nossa Seleção, já que é treinador europeu que irá trabalhar com jogadores que só têm o local de nascimento como Brasil, mas que jogam na Europa e, portanto, são mais do que conhecidos desse treinador, com uma ou duas exceções (uma delas, Neymar, claro).

Num mundo globalizado, em que exportamos nossa maneira de jogar e a perdemos, podemos ter a oportunidade de repatriá-la pela competência do ex-técnico do Barcelona, Pep Guardiola. Que, por coincidência, está justamente desempregado, curtindo férias que ele mesmo se deu, depois de nos mostrar à exaustão como se deve praticar o futebol arte.

Que venha Pep Guardiola, o mais brasileiro de todos os técnicos à disposição hoje no mercado, se os cartolas da CBF tiverem coragem para tanto! 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A SELEÇÃO BRASILEIRA E O FUTEBOL ESPANHOL






Sempre achei que Mano Menezes não é o técnico ideal para a Seleção Brasileiro. E seu trabalho, até agora, tinha sido medíocre: um time sem padrão de jogo, com mudanças a cada partida; um time lento e sem criatividade; enfim, uma Seleção que não empolgava nem o Galvão Bueno.

Continua achando que é ele, Mano, não é o ideal. Mas, já que está lá, a gente sempre imagina que uma hora a coisa possa melhorar.

E parece que realmente a Seleção achou um rumo. Nos dois últimos jogos, independentemente dos resultados - seis a zero contra o medíocre Iraque (12/10) e quatro a zero sobre a bem treinada equipe japonesa (hoje, 16/10) - o que se viu em campo foi um time mais criativo, com um futebol mais compacto, valorizando a posse de bola e, principalmente, fazendo gols.

Ainda não é o time ideal. Mas está no caminho. Parece que o esquema semelhante ao da Seleção da Espanha - sem um centroavante fixo - funciona bem, quando há dois volantes que sabem jogar bola e atacam com perigo, caso de Ramires e Paulinho. Então, o trio ofensivo, no caso Kaká, Hulk e Neymar, tocou a bola com precisão, abrindo os espaços e deixando as defesas adversárias sem saber bem a quem marcar.

Lembro-me da Seleção de 70, quando Zagalo aboliu os pontas e montou um time altamente ofensivo, com um falso centroavante (Tostão). Até humoristas repetiam o bordão "bota ponta, Zagalo", mas o esquema funcionou porque os jogadores selecionados para o meio de campo e ataque tinham grande capacidade técnica e inteligência: Pelé, Gérson, Rivelino, Jairzinho etc. E mais: treinaram exaustivamente, até que todos soubessem o que fazer em campo. O exemplo mais claro disso foi o último gol contra a Itália, quando Pelé, da entrada da área, lança a bola no vazio na ponta direita, sem olhar e, de repente, o Brasil todo explode com o gol de Carlos Alberto que levou angustiantes segundos para aparecer no vídeo.

A atual Seleção, ao adotar mais uma vez esse esquema, que muitos acham que foi inventado pelo Barcelona e pela Seleção Espanhola, recoloca um pouco de esperança na recuperação do bom futebol.

Precisa encontrar os jogadores certos e, se houver tempo e jogos suficientes para a assimilação desse esquema, aperfeiçoar dois pontos importantes: a marcação, que ainda está frouxa, e a saída de bola, sem chutões inúteis para a frente.

Enfim, acho que Mano Menezes ganhou sobrevida à frente da Seleção Nacional. Só esperemos que não faça, a partir de agora, mais nenhuma bobagem e, definido o padrão de jogo, acerte logo as peças, para que a torcida brasileira reencontre o prazer de ver jogar sua Seleção.

E que a crítica reconheça que o padrão e o esquema são, praticamente, os de 70: a Espanha e o Barcelona apenas o aperfeiçoaram. E nós precisamos retomá-los, melhorando o que os espanhóis fizeram, com a criatividade do jogador brasileiro, principalmente de Neymar, já que o Messi vai gastar o seu futebol pela Argentina, e não pela Espanha. Felizmente.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

UNS PITACOS GERAIS E MINHA OPINIÃO SOBRE O CAMPEÃO DA LIBERTADORES






Retomo minhas considerações - amadoras e totalmente despretensiosas - sobre futebol, depois de um longo e produtivo inverno (tive que me dedicar a outros escritos...), para comentar rapidamente sobre alguns fatos importantes que eu perdi nesse tempo todo. E depois, falar do Corinthians.

Não acreditei que o Corinthians ganharia a Libertadores. Ele ganhou. Não acreditei que o  Chelsea e Bayern de Munique fizessem a final da Champions League. Eles derrotaram o Real e o Barcelona e o Chelsea acabou campeão. Não acreditei que o Mano Menezes conseguisse um bom time para as Olimpíadas... e aí acertei! Ele não conseguiu.

Enfim, o futebol é mesmo um esporte que não dá sopa para a monotonia. Ninguém ganha na véspera - nem o poderoso Barça! Ninguém perde antes da hora, nem o limitado Corinthians.

Sim, o Corinthians! Porque é dele que vou falar um pouco mais.

O Corinthians era e continua sendo um time limitado. Podem jogar pedras, se quiserem, mas leiam meus argumentos, primeiro.

Um grande time, na minha modesta opinião, precisa ter: dois craques fora de série (ou, pelo menos um!) e um grupo de excelentes jogadores em termos competitivos, ou seja, alguns muito próximos da categoria de craques e aqueles que "carregam o piano", jogam para os outros renderem. E um banco próximo do que se possa chamar de excelência, em futebol, reservas que entrem em campo para mudar o panorama da partida, como diziam os velhos locutores de rádio.

(A exceção é o Barcelona - sempre ele! - que tem uns três quatro gênios, aí incluindo o Messi e os demais, se não são gênios, são craques - por isso, o Barça é o que é. Porque além de gênios e craques, os jogadores do Barça têm aquilo que chamo de inteligência para o futebol, coisa rara, mas necessária. E, mesmo assim, dá vexame... muito de vez em quando, mas dá!)

Pois, bem: o Corinthians não tem nenhum craque fora de série (Paulinho e Ralf são muito bons, mas não são craques); não tem nenhum jogador excepcional; não tem reservas que possam entrar e mudar o esquema de jogo, alterar o rumo de uma partida.

O que levou o Corinthians a ser campeão da Libertadores? E a ser, até mesmo, temido por outras torcidas?

A resposta é simples: o Corinthians tem um time espartano.

O Tite conseguiu fazer dos onze jogadores que entram em campo onze guerreiros espartanos, que se defendem com unhas e dentes e mais alguma coisa, e atacam com a fúria dos antigos guerreiros gregos. Defende-se com nove e ataca com seis, sete... Todos parecem ter sangue nos olhos... por algum tempo. Porque o esquema - muito bem montado - funciona só durante os primeiros minutos da partida, para atemorizar o adversário, já que ninguém consegue jogar assim mais do que vinte ou trinta minutos...

O problema é que, se essa tática não leva a dois ou três gols de vantagem no início do primeiro tempo - e isso está acontecendo várias vezes: o Corinthians tem-se notabilizado por criar muitas situações de gol e fazer poucos - o adversário, se tiver categoria, consegue equilibrar e até virar o jogo, se está perdendo apenas por um gol de diferença.

Isso aconteceu no domingo passado (26), quando jogou com o São Paulo e perdeu por 2 a 1. De virada. Depois de um começo avassalador. Em mais ou menos 20 minutos, o São Paulo deu de presente um gol (aos cinco minutos!), não viu a cor da bola, era um time totalmente perdido. Quando arrefeceu o ritmo espartano, o São Paulo, aos poucos, se acertou, tomou conta da partida e virou o jogo com dois belos gols de Luís Fabiano.

Cito o Luís Fabiano, centroavante de ofício, porque esta é outra falha do time do Corinthians: não tem um centroavante. As defesas temem o matador e passam esse temor para todo o time, que acaba jogando mais cautelosamente, porque sabem que não podem vacilar. No entanto, quando um time joga sem centroavante e, pior, perde muitos gols, a defesa ganha confiança e o time deixa de temer o adversário e acaba partindo para cima.

Portanto, o Corinthians, com o elenco atual, pode até ganhar o título mundial no Japão, no final do ano, mas é e continuará sendo um time limitado. Um time que se impõe pela força física, pela agressividade tática inicial, por jogar como guerreiros espartanos. Nada mais.

sábado, 28 de abril de 2012

ADEUS, BARCELONA?







Não existe time imbatível. E a história - desde os primórdios do futebol até os dias de hoje - está aí para provar. Que o diga o Barcelona, a mais recente vítima daquilo que, na engenharia, se chama de "cansaço de material".

Não. O time do momento não vai entrar em decadência porque perdeu três jogos e a possibilidade ser campeão espanhol ou da Liga da Europa. O ocaso  (e escolho com cuidado essa palavra e tento explicá-la mais adiante) desse time virá naturalmente com a substituição paulatina de seus jogadores. E, agora, tal processo pode se acelerar com a saída do seu treinador, Pep Guardiola, o cérebro por trás dessa fantástica máquina de jogar bola.

Mas, espere um pouco. Vamos tentar explicar melhor essa história de ocaso.

 É claro que não tenho bola de cristal - ninguém tem. Não se pode afirmar - e isso seria estupidez - que o Barcelona não prossiga sendo um time espetacular e que continue a proporcionar, como o atual, trabalho para os adversários, alegria para sua torcida e prazer aos críticos e amantes do bom futebol.

 Quando falo de ocaso do atual time, quero dizer que não veremos jamais - dentro de muito pouco tempo - esse exato estilo de jogo adotado pelos atuais jogadores do Barcelona. A partir do momento em que a renovação se fizer - e vai ser feita (e  o seria também pelo Guardiola) - o estilo de jogar do time começará a mudar. Pode mudar até para melhor, mas esse estilo de jogo com posse quase total da bola, passes rápidos, deslocamentos constantes, obsessão pelo gol mesmo sem um centroavante tradicional devemos guardar em nossa memória. Repito: talvez, nunca mais o veremos.


No futebol, como na vida, não há dois jogadores iguais. A alteração de uma peça já determina mudanças no conjunto. E o jogo coletivo (essência do futebol) depende do estilo, da visão de jogo e da capacidade técnica de cada um dos jogadores.

Talvez por isso, a famosa regra três que limita a trinta por cento a troca de jodadores, durante a partida, e não dos onze contendores (ou dos vinte de dois), o que ocasionaria serem outros os times e outro completamente o jogo. Dá-se ao treinador oportunidade de alteração tática, não de estilo.

Enfim, não são as derrotas o determinante para o desmonte breve desse time fantástico. Além da troca de jogadores, temos de levar em conta também o desgaste natural não exatamente da filosofia implantada no clube, mas do estilo de jogar. A velha máxima de que não se mexe em time que está ganhando é só um desses chistes folclóricos do futebol. Deve-se, sim, mexer - no momento certo - em time que está ganhando, até para que ele continue ganhando.

 Que venha, então, o novo Barça. E que continue a encantar o mundo e a servir de exemplo, sem ser imbatível, claro, que há sempre um timinho (os torcedores do Chelsea não me ouçam!) que joga sem vergonha de bancar o davi  diante de um gigante.