domingo, 20 de setembro de 2009

SOMOS TODOS TÉCNICOS DA SELEÇÃO

Se perguntarmos a qualquer torcedor qual a escalação da Seleção Brasileira de 1970, quase todos se lembrarão de: FÉLIX, BRITO, PIAZZA, CARLOS ALBERTO, MARCO ANTÔNIO, CLODOALDO, GÉRSON, RIVELINO, PELÉ. TOSTÃO E JAIRZINHO.

Mas quem se lembra do DARIO? Pois, é: o então centroavante do Atlético Mineiro, o Dario que parava no ar, ao cabecear, esteve lá, no México, pronto para defender o esquadrão canarinho. É, portanto, um tricampeão mundial.

E que fazia o Dario, o Dadá Maravilha, que era um centroavante rompedor, goleador, até mesmo, pode-se dizer, bom de bola, mas que nunca foi um craque, no meio de tantos jogadores fora de série? Diz a lenda que foi convocado pelo ditador de plantão, Emílio Garrastazu Médici, que o Zagalo teve que engolir.

Médici tinha a força para mandar. E Zagalo, apesar de todo o seu rompante, não era bobo de não obedecer. E assim como ele, muita gente faz pressão sobre o treinador da seleção para convocar esse ou aquele jogador. E quando é a mídia ou os formadores de opinião da mídia especializada em futebol a querer fulano ou sicrano, a pressão vira apelo popular. O que nem sempre é verdade.

Claro que cada um deseja ver o seu jogador preferido, por qualquer motivo, convocado para a Seleção. Eu mesmo poderia citar vários: Jonas, do Internacional de Porto Alegre; Grafite, do Wolfsburg, da Alemanha; Kléber, do Cruzeiro etc. etc. etc. São todos bons jogadores, ou alguém duvida? Poderiam estar na Seleção? Sim, claro, poderiam. E por que não estão? Porque existem vários outros do mesmo nível ou até melhores. E mesmo que todos os outros fossem do mesmo nível, há que se pensar numa coisa importante: no esquema de jogo adotado pelo técnico da Seleção, na confiança que esse técnico deposita em quem ele convoca, no biótipo desejado, no caráter e muitos outros fatores determinantes para a convocação.

O que eu quero dizer: não adianta a imprensa, a mídia, os comentaristas, a voz do povo, o bispo, o Presidente da República ou o técnico do time tal ou qual quererem fulano ou beltrano na Seleção. Quem convoca tem a força, o direito e o dever de escolher os jogadores que ele, e mais ninguém, acha que melhor cumprirão seu esquema de jogo. E ponto final.

Porque digo isso? Porque, estando a Seleção Brasileira classificada para as duas próximas Copas do Mundo – África do Sul e Brasil – começarão as campanhas para o Dunga convocar fulano ou beltrano, principalmente para 2010, que já está aí, batendo às portas de nosso coração torcedor.

Todo mundo quer o melhor para a Seleção – inclusive e, principalmente, o técnico que a comanda – mas não adianta reclamar: a responsabilidade de ganhar ou perder é de um só. Ou, se quiserem, de sua comissão técnica. Podemos discutir seus critérios, criticar suas escolhas, esbravejar por tal ou qual jogador, que isso não tira dele a responsabilidade de suas escolhas, porque, se perder, ele é quem perderá, e se ganhar, os jogadores é que ganharão. E o povo. E os políticos. E a mídia. E todo mundo que vive na periferia dos sucessos e dos fracassos da Seleção.

Por isso, mesmo dando por iniciada a temporada de campanha por convocações de determinados jogadores, eu afirmo que essas campanhas só têm um objetivo: projetar determinados comentaristas que fazem o gênero profetas do apocalipse, para se saírem bem no final: se o Brasil perder, dirão o famoso “eu não falei?” e terão argumentos para cair de pau no treinador. Se o Brasil ganhar, ninguém se lembrará do que disseram e eles tecerão todas as loas à sapiência do treinador, no meio de toda a euforia que a vitória provoca.

Enfim, todos procuram tirar sua casquinha do treinador da Seleção Brasileira, seja ele quem for. Porque assim é que as coisas caminham, no mundo do futebol: com paixão, com corações e mentes perturbadas pela emoção e nem um pingo de razão.

Se o futebol fosse racional, seria convocado um time só de filósofos, ou de engenheiros ou de matemáticos...

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

DUNGA: TRABALHO E SERIEDADE.


Saudei a chegada de Dunga à Seleção com um misto de esperança e expectativa. Estava cansado de Parreira e sua mesmice. E de outros técnicos, também, que prometeram muito e pouco fizeram. Treinar a Seleção Brasileira não é um emprego (embora muitíssimo bem remunerado): é uma missão.

Zagalo, por exemplo, tinha essa chama de missionário. Daria a vida pela amarelinha, como ele a chamava. Fez coisas formidáveis pelo futebol brasileiro. Não sei se lhe falta o carisma dos vencedores (porque vencedor ele é), mas se fizesse o que fez em qualquer outro país do mundo, teria honrarias e seria cortejado como herói. O povo brasileiro, estranhamente, não lhe dá o devido valor. Mas Zagalo é passado. E a Seleção precisava renovar-se.

Acompanhei com interesse o trabalho do Dunga, durante esse tempo todo. Sofri com seus tropeços, com sua falta de conhecimento tático, principalmente. Pelo menos, no começo. A Seleção teve um período em que parecia ter perdido o prumo: jogava sem padrão. Não sabia se jogava bonito ou se jogava para vencer. Não sabia se ia ao ataque ou ficava se defendendo. Um período crítico, de futebol feio, de muitas experiências.

Mas, como sempre, o trabalho honesto premia quem o pratica. Dunga, aos poucos, foi ganhando não apenas confiança, mas também conhecimento tático e conhecimento do potencial, da disposição, da capacidade e, principalmente, do caráter de cada jogador. Foi-se formando um time. Um time poderoso. Porque formado a partir de um elemento que, em termos de Seleção, as pessoas julgam um sacrilégio: a preocupação com a defesa.

Nossas seleções sempre tiveram deficiências defensivas. Gosto de lembrar a de 70, pela genialidade de seus jogadores. Tinha um beque improvisado, Piazza, que era meio-campo. Um goleiro, Félix, que não inspirava confiança nem o respeito dos adversários. Seu apelido era Papel, por ter um físico franzino, para a posição. Um atleta excepcional, quanto ao físico, mas meio cabeça de bagre, o Brito. No entanto, essa defesa não decepcionou, porque foi arduamente treinada. Lembre-se de que Zagalo teve quase dois meses de treinos, antes de partir para o México.

O que eu quero dizer: Dunga arrumou, primeiro, a defesa. Com um goleiro que é o melhor do mundo e com zagueiros de boa, senão ótima, qualidade, não importa muito quem jogue, e um líbero, Gilberto Silva, que, se não é brilhante, é um leão à frente da zaga. Depois, aos poucos, as peças foram se ajustando, porque o esquema de jogo se definiu: um time que entra em campo com os jogadores sabendo cada um a sua função e, coletivamente, confiando no trabalho uns dos outros, ganha o que se chama padrão de jogo.

Que Dunga colha os frutos de seu trabalho, portanto, mas, o que não parece ser o caso, não pode relaxar achando que já tem todas as soluções para o Brasil ser campeão mais vez, na África do Sul. Ainda há muito trabalho a fazer, para que esse objetivo seja alcançado. Aliás, se desejo, sim, mais um título, acho que, mais importante do que isso, é ter uma Seleção que jogue bem, que jogue para vencer. Que não se acovarde. Se vai, realmente, vencer a Copa, isso já são outros quinhentos, porque Copa do Mundo é briga de cachorro grande.

domingo, 6 de setembro de 2009

DUNGA DÁ UM NÓ TÁTICO NA SELEÇÃO DE MARADONA


A Argentina começou a semana do jogo contra o Brasil pelas eliminatórias da Copa como time pequeno da Libertadores: fazendo ameaças e armando um circo.

As ameaças e provocações já não mais abalam ninguém, porque se sabe, há muito, que não se ganha mais jogo no grito, como acontecia quando não havia transmissões diretas da televisão, quando os jogos em casa dos adversários se transformavam em guerra, com agressões às comitivas estrangeiras, com a torcida fazendo barulho à noite na porta do hotel, com pressão sobre os árbitros e outras cositas más.

O circo foi armado, grotescamente armado: jogo em Rosário, cidade mítica (por outros confrontos) e mística (lá está a sede da igreja maradonista, algo tão ridículo que nem vale a pena comentar); campo apertado, com torcida próxima aos jogadores, para melhor exercer pressão; grama cortada rente e molhada, para dificultar firulas dos brasileiros. Era o circo do Maradona, que só esqueceu de treinar melhor os palhaços de sua trupe. Lá estavam eles, claro, Messi, Tévez e companhia, esforçados artistas da bola, em suas melhores fantasias de glória, mas, ao final, apenas palhaços de um circo mambembe travestido de uma seleção comandada por um ex-jogador genial, mas um técnico, hoje, sem nenhum preparo além da capacidade de falar asneiras.

Maradona engoliu sua empáfia com o nó tático preparado por Dunga que, como treinador da Seleção Brasileira, tem vencido, mas não ainda convencido totalmente. No entanto, tem-se que dizer a favor dele que tem feito um trabalho bastante razoável de união do grupo de jogadores e, aos poucos, tem conseguido armar um time vencedor.

Ex-jogadores que se tornam técnicos carregam consigo os vícios e virtudes de suas posições em campo. Tenho observado que, em geral, se saem bem como técnicos jogadores de posições mais recuadas. Porque, vindo de trás, têm uma visão melhor do posicionamento dos demais companheiros e acabam adquirindo uma visão mais clara das táticas do jogo.

Maradona, como atacante que foi, dá mais ênfase às táticas de ataque. Conta, inclusive, com bons jogadores do meio de campo para a frente. Mas não adianta haver bons atacantes, se a defesa é ruim. Ruim e mal posicionada, ou mal escalada, como acontece com a Seleção Argentina. Sua zaga é risível e mal treinada, por serem jogadores lentos e, mais do que isso, arrogantes: pensam que jogam muito mais do que o fazem efetivamente.

Já o nosso treinador, que era mais um líbero à frente da zaga, tem sabido resolver um problema crônico de quase todas as nossas seleções, mesmo as campeãs: a defesa. (Sempre lembro a famosa seleção de 70, com Félix, Brito e Piazza, que jogou improvisado, por falta de melhor opção). Dunga armou e tem treinado a Seleção a partir da escolha criteriosa (às vezes, até, meio medrosa) de jogadores que primem pela força do desarme. Não se envergonha de escalar volantes marcadores e liberar com cautela os laterais para o ataque.

Daí para frente, é só contar com o gênio de Kaká ou de qualquer outro que o substitua à altura, até mesmo Ronaldinho Gaúcho, se estiver em forma. Porque, com um meio de campo aguerrido, é só esperar o adversário, desarmar e sair no contra-ataque, quase sempre mortal. Foi o que não viu o Maradona carrancudo e descabelado à beira do campo.

Além disso, a Seleção brasileira tem mostrado um razoável repertório de jogadas ensaiadas, principalmente em bolas paradas, o que é também uma evolução, já que não temos mais jogadores que batam tão forte na bola quanto o faziam, por exemplo, um Nelinho, ou um Rivelino ou, mesmo, com a capacidade de um Zico.

Tudo isso levou o Brasil a uma vitória sem grandes sustos frente a uma Argentina que atacava sem criatividade, diante da nossa defesa bem postada. Três a um foi até pouco, pelo andamento do jogo. Maradona pode dar-se por satisfeito de ter saído de campo sem uma goleada mais retumbante. E talvez até mesmo sem as unhas dos pés, porque as das mãos ele as roeu todas.

Jogo: Brasil 3 x 1 Argentina

Argentina
Andújar; Zanetti, Sebá Domínguez, Otamendi e Heinze; Mascherano, Maxi Rodríguez (Agüero), Verón e Dátolo; Messi e Tevez (Milito)
Técnico: Diego Maradona

Brasil
Júlio César; Maicon, Lúcio, Luisão e André Santos; Gilberto Silva, Felipe Melo, Elano (Daniel Alves) e Kaká; Robinho (Ramires) e Luís Fabiano (Adriano)
Técnico: Dunga

Data: 05/09/2009 (sábado)
Local: estádio Gigante de Arroyito, em Rosario (ARG)
Árbitro: Oscar Ruiz (COL)
Auxiliares: Abraham González (COL) e Humberto Clavijo (COL)
Renda: 4.602.00 de pesos argentinos.

Cartões amarelos: Mascherano, Verón (ARG); Lúcio, Kaká, Luisão, Luís Fabiano e Ramires (BRA)
Gols: Luisão, aos 23min, e Luís Fabiano, aos 30min do primeiro tempo; Dátolo, aos 20min, Luís Fabiano, aos 22min do segundo tempo