segunda-feira, 19 de outubro de 2009

SANTOS CAMPEÃO DA LIBERTADORES


Pois, é: “agora quem dá bola é o Santos”! “O Santos é o grande campeão!” E não só grande, mas imenso, com um futebol digno dos tempos de Pelé, Coutinho, Zito e tantos outros. Desfilando pelo gramado de Vila Belmiro, o time do Santos encanta pelo toque de bola, pela entrega, pela elegância de jogadas e pela fome de gol: nove, repito, nove a zero, num adversário absolutamente tonto, não por ser ruim, mas pela qualidade das jogadas.

Enquanto o time de Wanderley Luxemburgo coleciona empates chochos no Campeonato Brasileiro, as meninas da Vila, ou as “sereias”, como alguns comentaristas esportivos exageram, desfilam um futebol brilhante, criativo e, ao mesmo tempo, comprometido com o gol, aliás, com gols, com muitos gols.

Não descansam um só minuto, as meninas da Vila: jogam um futebol vertical, que busca o gol, que atormenta o tempo todo a defesa adversária. Qual time de futebol que vai para o vestiário com dois a zero no placar e volta para fazer mais sete gols? E não fizeram mais, por sorte das adversárias, ou por aqueles famosos caprichos da bola que não entra, daqueles “quases” que arrancam das torcidos um uh! de desespero, daquelas jogadas que deviam ter terminado em gol, mas os deuses dos campos, talvez condoídos com os olhos arregalados da defesa atônica, colocam no saldo devedor como gol perdido ou desperdiçado. E não fazem gols simples, as meninas: nada disso. Para elas, o campo é o bastidor onde, com a bola, riscam e bordam caprichosos arabescos, deliciosas tabelinhas que desarmam, tonteiam e deixam para trás zagueiras atabalhoadas e provocam delírios da torcida, embevecida com a delicada força com que fazem balançar as redes adversárias.

Comandadas pela incrível Marta, a maestrina que dá o exemplo de desprendimento, como um pique de cinquenta metros para alcançar um lançamento, aos trinta minutos do segundo tempo, quando o jogo já estava mais do que ganho, como se fosse necessária aquela única bola, para obter a vitória. Mas não são aprendizes, as demais instrumentistas da orquestra: solam também afinadas melodias, para desespero de defesas que não sabem bem a quem marcar, se à maestrina, com seus dribles desconcertantes, ou às demais jogadoras que passam em vôos de beija-flor, para fazer balançar as redes.

Se tivesse nascido homem (e jogador de futebol), Marta estaria no mesmo nível, talvez, de Pelé, de Garrincha e acima de quase todos os demais jogadores de qualquer época, de qualquer lugar. Marta é completa ou, simplesmente, a melhor do mundo. Um exemplo de garra, de determinação, de criatividade, de empenho.

Futebol é isto, marmanjos do mundo bola: não apenas técnica, não apenas conjunto, não apenas domínio, mas postura de vencedor, vontade de arriscar, de partir para cima, de mostrar confiança, de impor o ritmo e de chutar no gol. De passar a bola verticalmente, sem aquela mania de meio-campistas que, irritantemente, penteiam a jogada, atrasam sistematicamente a bola, como se fossem enceradeiras a rodar num mesmo lugar.

O gênio da bola não é apenas aquele que tem visão do jogo, que tem técnica, que faz belos gols, mas também, e talvez, principalmente, aquele que tem vontade de jogar, que joga não apenas pelo dinheiro (que pode chegar a milhões), mas por amor à arte de jogar futebol, como as meninas da Vila.

Santos 9 x 0 Universidad Autónoma

Santos: Andréia, Aline Pellegrino (Piquena), Carol Arruda e Janaína; Dani, Ester, Fran, Maurine e Marta; Erika (Suzana ) e Thais(Ketlen)
Técnico: Kleiton Lima

Universidad Autonoma: Glória Rodriguez, Angélica Vasquez, Carmem Benitez, Jéssica Santacruz e Ediberta Jacquet; Johana Galeano, Hilda Riveros (Francisca Pereira), Noelia Cuevas (Silvia Cristina ) e Mônica Karina; D. Maria e Gloria Esther (Anabel).
Técnico: Castor Vera

Gols: Maurine, aos 13, e Marta, aos 16 minutos do primeiro tempo; Érika, aos 2, Fran, aos 5, Thaís, aos 9, Érika, aos 11, Suzana, aos 25, Dani, aos 32, Ketlen, aos 38 minutos do segundo tempo.

Cartões Amarelos: Silvia Cristina (UA)

Local: Estádio Vila Belmiro, em Santos (SP)

Público: 14.183 pagantes

Data: 18 de outubro de 2009 (domingo)

sábado, 17 de outubro de 2009

MUNDIAL SUB-20: UMA FINAL PARA SER ESQUECIDA


Um dos jogos mais horríveis a que já assisti, em se tratando de seleções brasileiras, essa final entre Gana e Brasil, pela final do Mundial sub-20.

A Seleção Brasileira até que vinha jogando bem e conseguiu chegar à final com um futebol bastante interessante. Bateu a Alemanha, por exemplo, depois de estar perdendo por 1 a zero, aos trinta minutos do segundo tempo. Conseguiu o empate e, nos acréscimos, mostrou raça para virar.

Tudo indicava, portanto, que tinha futebol para bater Gana, uma seleção que contava apenas com a velocidade de seus jogadores, para tentar alguma coisa. E parecia que nada poderia tirar o título do Brasil, que dominava de forma quase absoluta o jogo, marcando de forma a anular completamente qualquer possibilidade de imposição de um jogo veloz, por parte do adversário.
No entanto, faltou um ingrediente fundamental, no futebol: vontade de ganhar. Os garotos tocavam a bola até a entrada da área, mas ninguém assumia a responsabilidade de uma jogada mais arriscada, de um chute a gol ou de, ao menos, entrar na área adversária. Transformaram uma partida que poderia ser decidida em poucos minutos num jogo arrastado e repetitivo de trocas inúteis de passes na intermediária de Gana, sem nem um segundo sequer de inspiração, de vontade, de arrojo. Um jogo exasperante que se arrastou por 120 minutos, num zero a zero que dava nos nervos de quem assistia. Uma das maiores torturas, em termos de futebol. Parecia um jogo de robôs, de zumbis: os garotos tocavam a bola mecanicamente, sem entusiasmo, para frente e para trás. As poucas oportunidades de gol foram desperdiçadas estupidamente, por atacantes ineptos e sonolentos, sem tempo de bola, sem garra para tentar romper a defesa adversária.

Por sua vez, Gana pouco fez e pouco ameaçou a meta brasileira, a não ser em alguns poucos minutos no final da prorrogação, numa tentativa também inútil de chegar ao gol diante de uma defesa bem postada, mas que apenas rebatia para fora ou para frente qualquer jogada mais ou menos perigosa.

E teve um agravante esse jogo sonolento e repetitivo: Gana jogou a maior parte do tempo com dez jogadores. E a Seleção Brasileira não teve ousadia para aproveitar-se da superioridade numérica e impor aos africanos uma goleada, coisa perfeitamente possível, diante da fragilidade do adversário.

Mas, como diziam os cronistas antigos: os deuses dos gramados punem aqueles que desdenham da sorte e não se empenham em busca da vitória: nem nas cobranças de pênaltis, os jogadores brasileiros tiveram competência. Por duas vezes, o placar favorável permitiria a vitória e por duas vezes cobraram displicentemente nas mãos do ótimo goleiro africano: vitória de Gana, afinal campeã do Mundial sub-20.

Não teve méritos a campeã, já que não jogou absolutamente nada. Mas também não merecia o título uma seleção de jovens que não teve vontade, que não se esforçou, que não teve nem um minuto sequer de postura de campeão.

Porque não basta jogar bem, para receber os louros da vitória: é preciso querer ganhar. E o Brasil não quis, pois faltou-lhe um líder em campo que mostrasse aos meninos o que é realmente jogar futebol, que desse liga ao time.

Um jogo e uma seleção que, infelizmente, devem ser esquecidos. Apesar de contar, individualmente, com bons jogadores.

GANA 0 (4) X (3) 0 BRASIL
Data: 16/10/2009 (sexta-feira)
Local: Estádio Internacional do Cairo, no Cairo (Egito)
Árbitro: Frank De Bleeckere (Bélgica)
Auxiliares: Peter Hermans e Walter Vromans (ambos da Bélgica)
Cartões amarelos: Alex Teixeira, Douglas, Souza (BRA);
Cartão vermelho: Addo (GAN)
Gols nos pênaltis: Alan Kardec, Giuliano, Douglas Costa (BRA); Ayew, Inkoom, Adiyiah e Agyemang-Badu (GAN)
GANA: Agyei; Inkoom, Mensah, Addo e Addy; Agyemang-Badu, Quansah (Agyemang), Rabiu (Addae) e Ayew; Osei (Kassenu) e Dominc Adiyiah
Técnico: Sellas Tetteh
BRASIL: Rafael; Douglas (Wellington Júnior), Dalton, Rafael Tolói e Diogo; Renan (Maicon), Souza, Giuliano, Paulo Henrique Ganso (Douglas Costa) e Alex Teixeira; Alan Kardec
Técnico: Rogério Lourenço

domingo, 11 de outubro de 2009

JOGAR A 3.600m DE ALTITUDE: NIGUÉM MERECE!


A história é a seguinte: a FIFA proibiu o jogo em estádios acima de 2800m, o que tiraria da Bolívia a possibilidade de realizar jogos em La Paz. A CBF foi a única Confederação latinoamericana a concordar com essa decisão. Todas as demais confederações fizeram média com a Bolívia e foram contra. Inclusive, o senhor Diego Armando Maradona cometeu a imbecilidade de bater bola com Presidente peruano, no famigerado estádio Hernando Siles, em La Paz, para dizer claramente que concordava com os bolivianos.

Ao jogar lá em cima, a Argentina tomou uma goleada história: seis a zero para eles. E Maradona, então, saiu reclamando, claro. Mas aí já era tarde: o vexame se consumara.

Hoje, 11.10.2009, o Brasil foi jogar lá, em cima do morro. Contra a mesma horrorosa Seleção Boliviana, que ocupava a lanterna das eliminatórias. Ocupava. Porque, claro, a 3600m, eles ganham de todo mundo que não está acostumando a jogar com a atmosfera rarefeita. Até que a Seleção Brasileira conseguiu alguns segundos de lucidez e só não empatou ou, até mesmo, ganhou a partida por falta de sorte. Consegui meter uma bola na trave e andou perdendo alguns gols feitos. Final: apenas dois a um para os hermanos.

Se acho que futebol é vida, não posso concordar, absolutamente, com esse tipo de condição: é totalmente desumano expor atletas ao desgaste e ao risco em altitudes absurdas, como essa, sem uma longa preparação que, no caso de eliminatórias, é impossível. Dizem os especialistas que os jogadores precisariam de um mínimo de quinze dias de adaptação.

Se acho que futebol é arte, aquilo que se viu em campo – um time que não consegue trocar três passes certos, que não controla o tempo da bola, que não vai ao ataque, porque, se for, não consegue voltar – está longe, muito longe de ser um bom jogo de futebol.
É um risco para os atletas e um acinte para quem assiste a realização de jogos de futebol a uma altitude desumana, como a de La Paz.

Há a possibilidade de que a FIFA volte a proibir esse tipo de “espetáculo”. Fico torcendo para que isso aconteça. Porque uma seleção não pode, em favor da boa convivência com a ética esportiva, tirar proveito de uma condição a que nenhum outro time tem possibilidade de contornar. Jogar em casa já é um bom diferencial, mas em cima do morro é decretar a derrota por antecipação.

Dizem que os bolivianos que moram nas alturas dos Andes mascam folha de coca, porque ela teria a possibilidade de anular parcialmente os efeitos da altitude. Não sei se isso é verdade.
Em todo caso, ou a FIFA proíbe jogos lá em cima, ou libere de vez o uso da famigerada folha de coca.



BOLÍVIA X BRASIL

BOLÍVIA: Hugo Suarez, Zabala, Rivero, Ronald Raldes e Ignácio Garcia; Reyes, Olivares, Gutiérrez e Abdon Reyes (Vaca); Marcelo Moreno (Pedriel) e Arce (Pachi).

Técnico: Erwin Sanchez.

BRASIL: Julio Cesar; Maicon, Luizão, Miranda e André Santos (Elano); Josué, Ramires, Daniel Alves e Diego Souza (Alex); Nilmar e Adriano (Diego Tardelli)

Técnico: Dunga.

Data: 11/10/2009 (domingo).

Local: estádio Hernando Siles, em La Paz (Bolívia).

Árbitro: Pablo Pozo (Chile).

Assistentes: Patrício Basualto e Francisco Mondria (ambos do Chile).

Cartões amarelos: Zabala, Gutiérrez, Rivero (Bolívia), Ramires, André Santos, Josué, Daniel Alves (Brasil).

Gols: Olivares (Bolívia), aos 10min; Marcelo Moreno, aos 31min do primeiro tempo; Nilmar (Brasil), aos 25min do segundo tempo.