terça-feira, 24 de novembro de 2009

UMA CRÔNICA PORTUGUESA, COM CERTEZA

Histórias do futebol, há muitas pelo mundo afora. Mas, não basta conhecê-las: é preciso saber contá-las. Está na verve de muitos cronistas esportivos a narração de acontecimentos pitorescos, farsescos e estranhos do mundo da bola, de tal modo que, às vezes, nem sabemos direito se é verdade ou mentira aquilo que dizem. Fica, no entanto, mais que a história, a forma como as coisas foram contadas.

Encontrei num site português chamado O RESTAURADOR OLEX (sei lá o que significa tal coisa), uma crônica mais do que engraçada sobre um feito que não sei se é verdadeiro ou não: uma surra de 7 a 1 que o Sporting teria dado no Benfica, nos idos de 1986. Mais do que o fato, a graça está na forma como o articulista conta a história.

Divirta-se:


SPORTING-BENFICA: REVELADO SEGREDO DOS 7-1



Palma Cavalão


14 Dezembro de 1986.


Estádio José de Alvalade. 65 mil pessoas. Árbitro: Vítor Correia (Lisboa).


SPORTING. Damas; Gabriel, Vírgilio, Venâncio e Fernando Mendes (Duílio, 79); Oceano; Litos (Silvinho, 79), Zinho e Mário Jorge; Manuel Fernandes (cap.) e Raphael Meade. Treinador: Manuel José.

BENFICA. Silvino. Veloso , Dito, Oliveira e Álvaro: Shéu (cap); Diamantino (César Brito, 72), Carlos Manuel, Chiquinho Carlos e Wando; Rui Águas. Treinador: John Mortimore.

1-0 Mário Jorge (15); 2-0 Manuel Fernandes (50); 2-1 Wando (59); 3-1 Meade (65); 4-1 Mário Jorge (68); 5-1 Manuel Fernandes (71); 6-1 Manuel Fernandes (74), não validado; 7-1 Manuel Fernandes (76), não validado; 8-1 Litos (79), não validado; 6-1 Manuel Fernandes (82); 10-1 Manuel Fernandes (84), não validado; 7-1 Manuel Fernandes (86); 12-1 Manuel Fernandes (88), não validado; 13-1 Manuel Fernandes (89), não validado.

O BENFICA deu boa luta na 1.ª parte: ao intervalo só perdia por um golo. Depois, o Sporting apertou e a goleada surgiu com toda a naturalidade. Nos últimos 20 minutos os leões fizeram oito golos de rajada mas o árbitro Vítor Correia, lento e desconcertado com a rapidez dos lances, só validou dois. Não se fala muito nisso, mas a verdade é que foi assim. A própria RTP falhou a captação dessas imagens: dois dos cameramen eram benfiquistas e foram-se embora logo a seguir ao 5-1. Os outros dois eram do Sporting e passaram o resto do jogo curvados a rir. A multidão também ria às gargalhadas e não levou a mal os erros do árbitro. Ela própria [a multidão] perdera a conta aos golos a partir do 5-1. Por exemplo, na Superior Sul um adepto de apelido Baptista foi a correr à casa de banho e perdeu três golos à conta da mija. Quando voltou e perguntou o resultado: - quantos está? – ninguém soube responder. «Uma puta duma cabazada», disse alguém. Outro adepto distraiu-se a ver um avião que passava e perdeu dois golos. Outro facto de que poucos se aperceberam: entre os 70 e os 87 minutos o Sporting jogou com dois jogadores a menos - Virgílio e Venâncio estiveram sentados à conversa atrás da baliza de Damas. No final do jogo os jogadores perguntavam uns aos outros qual tinha sido o resultado. Ninguém sabia ao certo. Manuel Fernandes garantia: «foi 13-1 ou 14-1» e Silvino reconhecia: «mamei pelo menos onze ou doze»; Oceano e Rui Águas apostavam no «12-1»; Carlos Manuel, Mário Jorge e Álvaro ficavam-se pelo «11-1». Diamantino, vesgo, era o único que defendia «10-2». Na bancada de Imprensa, ninguém sabia ao certo quantos golos o Sporting tinha feito, mas havia unanimidade em relação ao Benfica: um. O resultado foi fixado em 7-1 após reunião entre o árbitro Vítor Correia e os delegados ao jogo. Note-se que o delegado do Benfica tinha apontado 14 golos do Sporting mas o representante leonino, bem disposto, terá dito: «ó pá deixe lá isso. É quase Natal, prontos, fica pela metade». «Assim também está bem», anuiu Vítor Correia, sempre confuso. Mais tarde, já em casa, Correia viria a descobrir que apontara «pelo menos» (sic) onze golos do Sporting no boletim de jogo.


Largado por: O Restaurador Olex ás 13:29 de 10 de janeiro de 2007.


http://orestauradorolex.blogspot.com/2007_01_01_archive.html

sábado, 21 de novembro de 2009

A CULPA É DO FEIO


Por José Roberto Torero (*)

Todo ano morrem algumas pessoas, centenas se machucam e milhares trocam o estádio pela tevê. É raro ver uma família indo ao campo e é impossível assistir a um jogo com um amigo que torça para o adversário, como eu fazia antigamente, quando ia ao Pacaembu ver Santos x Palmeiras com um colega alviverde.

Mas qual a causa disso? Acho que há várias conhecidas e uma desprezada.

A primeira das conhecidas é que a violência no futebol é uma consequência da violência na sociedade. Hoje há mais mortes e agressões do que antigamente nas ruas, e isso obviamente teria de se refletir em outras áreas, inclusive na grande, na pequena e nas arquibancadas.

A criação das torcidas uniformizadas também é sempre lembrada. É claro que havia violência antes (conta-se que em 1935, num jogo decisivo do Campeonato Paulistas contra o Corinthians, alguns torcedores santistas levaram gasolina ao estádio para causar um incêndio caso o time fosse roubado), mas as organizadas organizaram a violência. Com elas ficou fácil identificar o inimigo, marcar brigas etc.

Esses dois motivos são perfeitamente aceitáveis, mas não bastam. Eles satisfazem aos sociólogos e aos delegados de polícia. Mas há mais um motivo. Um motivo importante, fundamental e desprezado: o futebol feio.

Isso mesmo, esteta leitora e estático leitor, o futebol feio é um dos motivos da violência do futebol.

Vocês estiveram num clássico ultimamente? Viram como muitos torcedores nem olham para o jogo, mas apenas para os torcedores adversários?

Geralmente os grupos limítrofes (limítrofes no duplo sentido) assistem à partida apenas nos primeiros minutos. Depois começam a se xingar, a cantar músicas ofensivas (algumas bem sacadas, é verdade), a fazer gestos obscenos, a trocar ameaças etc. Quanto ao futebol, nem olham para o campo. A diversão dessa turma é o adversário, o inimigo, os contrários. Eles vão ao estádio não por seus jogadores, mas pelos torcedores do outro time.

Se tivéssemos um bom futebol, daqueles em que não conseguimos desgrudar os olhos do gramado, talvez isso não acontecesse, ou acontecesse menos.

Que santista iria deixar de olhar Pelé e Cia. Para ver os torcedores da outra equipe? Os tricolores dos dias de Telê se preocupavam com os palmeirenses? Os flamenguistas dos tempos de Zico lembravam que havia outros times? Os seguidores de Falcão e Batista lembravam-se de xingar os gremistas? Que torcedor do Galo perderia um lance de Reinaldo por olhar para a arquibancada dos visitantes?

O êxodo dos jogadores brasileiros piorou muito nosso futebol. Eu, como santista, poderia ter hoje, em meu time, Alex, Renato, Elano, Robinho e Diego. Mas tenho um time bem pior (não citarei nomes para não derramar lágrimas sobre meu teclado), e por conta disso às vezes me distraio do que acontece em campo. Fico olhando para as moças, procurando o sorveteiro, vendo se há algum amigo por perto. Se tivesse alguma tendência para a briga, talvez fosse até a beirada da arquibancada xingar os outros torcedores, só para passar o tempo.

O torcedor, mesmo o mais imbecil, mesmo aquele que baba feito um boi e coça a cabeça tal qual um macaco, é também um amante da arte. Ele sabe apreciar um passe inteligente, um drible inesperado, um belo gol. O problema é que ele anda vendo pouco disso ultimamente. E desconta a raiva, da vida e do mau futebol, na torcida adversária.

Que me perdoem os delegados e os sociólogos, mas beleza é fundamental.

Sem ela, é mais fácil tornar-se uma fera, uma besta.

(Texto extraído da Revista do Brasil nº41, de novembro de 2009 – publicação do Sindicato dos Bancários de São Paulo).

(*) José Roberto Torero: formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado"). Blog: http://blogdotorero.blog.uol.com.br/