sexta-feira, 7 de maio de 2010

RONALDO, UMA HISTÓRIA QUE MERECE RESPEITO






Primeiro ato: um Corinthians desmoralizado pela desclassificação na Libertadores, o sonho do centenário que, agora, é só um pesadelo.



Segundo ato: a torcida chamada organizada – sempre eles – faz um quebra-quebra na cidade, depois do jogo. Setenta são presos e soltos em seguida.



Terceiro ato: o presidente do Corinthians se reúne com representantes das organizadas que querem a demissão do técnico, Mano Menezes.



Quarto ato: caça aos culpados, incluindo aí o próprio técnico e o jogador mais caro e mais badalado do clube, Ronaldo Fenômeno.



Comentemos rapidamente cada ato.



A desclassificação. Com as contratações equivocadas de jogadores apenas razoáveis a quem se atribuiu a responsabilidade de organizar o time no meio de campo – caso de Danilo e Tcheco – o clube não se preparou devidamente para um torneio – a Libertadores – que exige muito mais do que apenas jogar bola: exige um certo jeito de enfrentar os demais times (no caso, de todos os demais países da América do Sul, mais o México, além dos times brasileiros, claro), exige também uma certa dose de experiência, muito de picardia e, mais ainda, de comprometimento, a tal da raça. E o Corinthians não tinha (e não tem) time preparado para isso.



A torcida organizada. O primeiro ato já desautoriza o terceiro. É um equívoco – e vou repetir isso até à exaustão – o fato de presidentes de clubes darem trela a organizadas. Essas torcidas só o que fazem é apropriar-se da marca do clube, que é um bem mais do que precioso, da camisa do clube, da fama do clube, para praticar atos reprováveis de vandalismo. Não deviam – e não devem – existir e, se existem, devem ser combatidas e não incentivadas com reservas de ingressos, com reuniões com presidentes ou quaisquer outras benesses. Ministério Público em cima das organizadas – que só atrapalham o futebol – não basta: é preciso que presidentes de clubes caiam na real. Elas não contribuem em nada para clube algum: só dão prejuízo e descaracterizam a saudável competição entre os clubes, para descambar para a violência e o vandalismo.



Ronaldo Fenômeno. Tem uma história de vida e de futebol que o coloca na patamar dos grandes jogadores de todos os tempos. Jovem, muito jovem ainda, fizeram com ele, na Holanda, uma besteira que até hoje lhe traz consequências: transformaram o menino franzino e espetacular num jogador forte, musculoso, trombador, também espetacular, mas isso mudou totalmente o metabolismo de seu corpo. Oito operações depois, consequência em parte do ganho de peso e em parte do jogo violento (nem sempre coibido por juízes incompetentes, mas isso é outra história), aos trinta e três anos, seu organismo responde de forma extremamente lenta a regimes que o façam perder peso. Mesmo “gordo” – e chamá-lo assim é desconhecer totalmente o que realmente se passa em seu corpo – ainda é um fenômeno. Não tem feito tantos gols, não tem jogado tanto quanto ainda tem capacidade de jogar, mas sua posição é a que mais depende do bom jogo de todo o time. A bola tem de chegar até ele na área, ou em corrida progressiva em direção ao gol, quando ele é imbatível. E o time do Corinthians parece estar jogando com o breque de mão puxado: é lento e previsível. Assim, Ronaldo pode até ter, sim, parte da responsabilidade da desclassificação, mas não a tem sozinho e, nesse ponto, está muito bem acompanhado pelos demais jogadores , pelo técnico e pela preparação física.



Assim, vamos devagar com o andor, na hora de buscar responsabilidade ou fazer acusações, principalmente por certos repórteres que abdicam de sua função para se tornarem torcedores, incentivando até mesmo a torcida contra um ídolo que, se não é inatacável, merece, por tudo o que já fez, respeito. Muito respeito.




Serviço:

Corinthians 2 x 1 Flamengo


Taça Libertadores da América


Local: Pacaembu, São Paulo, SP


Data: 5 de maio de 2010.


Corinthians: Felipe, Alessandro, Chicão, William, Roberto Carlos, Ralf, Elias (Jucilei), Danilo (Paulinho), Jorge Henrique (Iarley), Dentinho e Ronaldo.


Técnico: Mano Menezes.


Flamengo: Bruno, Leonardo Moura, Ronaldo Angelim, David, Juan, Maldonado (Toró), Rômulo, Willians, Vinícius Pacheco (Kleberson), Vagner Love (Fierro) e Adriano.
Técnico: Rogério Lourenço.



Juiz: Roberto Silvera (Uruguai).


Cartões amarelos: Iarley, Ronaldo Angelim, David, Juan, Bruno e Willians.


(Obs.: no primeiro jogo, no Maracanã, o Flamengo ganhara por 1 a 0 e, ao fazer gol na casa do adversário, garantiu sua classificação, diante do empate do número de gols).

segunda-feira, 3 de maio de 2010

QUE TIME É ESSE?

(Paulo Henrique Ganso,20; Neymar, 18 - foto sem autoria)

Desconfiado por natureza (minhas origens mineiras não falham), esperei. Esperei bastante. Esperei que terminasse o Campeonato Paulista. Para falar de um time de sonho, sem que o sonho virasse pesadelo.

Do baú da história, lembrei, dentre tantos times fantásticos, aquela Seleção Brasileira do mestre Telê... Não, nem vou falar da tristeza de outras não-conquistas que estavam líquidas e certas... Tantos os esquadrões que traçaram telas de Miró em campos verdes pelo mundo afora: Polônia, Holanda... Não! Era preciso esperar. Que a maldição do belo a sucumbir mais uma vez às botinadas, ao ferrolho, ao feio não se realizasse!

Então, esperei.

Esperei um time que surgiu das ondas e em ondas encantou o País, com a alegria (termo já gasto, mas...) de seu toque, de uma genialidade há muito perdida e sempre desejada. Um moleque... não, dois... não, três... vários, jogando o jogo do sonho: Neymar, Paulo Henrique, Wesley, Marquinhos, Robinho (ainda mais moleque, do alto de seus 26 anos), Felipe, André...

Era o Santos a ressurgir das espumas, vênus nua e encantada, a maravilhar nossos olhos, a iluminar os estádios, a fazer-nos perguntar, atônitos: isso é possível?

Porque, diante do futebol mágico dos meninos praieiros, ficava difícil não nos perguntar, também: podem vencer? Pode ser campeão um time que só joga para frente, que tem por objetivo apenas fazer gols e se divertir, e dançar e pular, e traçar no gramado novos caminhos para a bola?

E veio a hora da verdade: a final contra o Santo André.

Tremi. Sim, confesso que tremi. Porque vira o time do ABC jogar e, dentre os outros dois finalistas (São Paulo e Grêmio Prudente), aquele que podia complicar. Porque também jogava bonito, também tinha fome de gol e, mais, parecia ser mais encorpado na defesa, ter mais força física, ter mais disposição que os outros.

Não seria apenas um sparring, o Santo André. E de fato não foi.

Há muito, o futebol brasileiro não via um jogo de características épicas, como Santos e Santo André, no Estádio do Pacaembu, lotado, neste domingo 2 de maio de 2010. Um encontro para ficar na histórica, pela dramaticidade, pelo empenho, pela consagração de dois gênios: Neymar, com dois gols espetaculares, e Paulo Henrique Ganso, pelo domínio do jogo, pelo controle da partida, pela visão do que é, realmente, o futebol.

O Santo André cometeu um único pecado: quis ganhar no grito um jogo que tinha condições de ganhar na bola, como de fato acabou ganhando, por número insuficiente de gols. Não precisava querer apitar o jogo e mandar no juiz, aliás, como sempre, uma arbitragem no mínimo discutível. Não precisava querer intimidar os meninos leves e irreverentes do time do Santos. Bastava jogar.
No entanto, ao provocar a expulsão de seu próprio centroavante e do lateral santista, Leo, comprometeu os esquemas táticos das duas equipes e quase transformou a partida numa guerra inútil.

As expulsões de mais dois santistas, em momentos cruciais do jogo, levavam a crer que o título de campeão iria, com alguma justiça, para o Santo André, embora a campanha santista tivesse sido a dos sonhos de todo torcedor. A maldição das equipes que jogam bonito e se perdem no último instante desenhava-se no Pacaembu, diante de uma torcida animada, mas totalmente desconfiada. E sofredora.

Foi então que surgiu Paulo Henrique, o dono do time, o dono do jogo. Como um veterano, menino de 20 anos chamou a si a responsabilidade de segurar a bola, provocar o adversário, não com malícia, mas com técnica, sofrer seguidas faltas, e manter o time no ataque e não acuado, como seria de se esperar.

E assegurou, não a vitória, que era quase impossível, mas o título. Mesmo perdendo, o Santos de todos os sonhos quebrava a escrita e a maldição de que a arte se rende à força, e saiu do Pacaembu com taça e a certeza de que esse time amadurecera em duas partidas – uma vitória e uma derrota – vários anos de treino, de esforço, de lutas.

Agora, é esperar que esse time se mantenha, que não haja o desmonte prematuro, com a venda de seus principais craques, para que essa campanha possa se reproduzir com novas vitórias e outras conquistas.

O sonho não virou pesadelo, e o futebol arte venceu!


(Torcedora do Santos - foto sem autoria)

Serviço:

Campeonato Paulista – final: Santos 3 x Santo André 3

Local: Pacaembu, São Paulo, SP

Data: 2 de maio de 2010

Gols: Nunes, a 1 minuto; Neymar, aos 7; Alê, aos 19; Neymar, aos 32 e Branquinho, aos 43 do primeiro tempo.

Santos: Felipe, Pará, Durval, Edu Dracena e Leo; Rodrigo Mancha, Arouca, Marquinhos, Paulo Henrique Ganso, Neymar (Roberto Brum) e Robinho (André e Bruno Aguiar).

Técnico: Dorival Júnior.

Santo André: Júlio César, Cicinho (Rômulo), Cesinha, Halisson, Carlinhos, Alê (Pio), Gil, Branquinho (Rodrigão), Bruno César, Nunes e Rodriguinho.

Técnico: Sérgio Soares

Juiz: Sálvio Spinola Fagundes Filho

Cartão amarelo: Rodriguinho, Júlio César, Pará, Alê, Carlinhos, Cicinho, Rômulo, Neymar, Halissonm Ganso, Edu Dracena.

Cartão vermelho: Nunes, Léo, Marquinhos, Roberto Brum.

Partida anterior: Santos 3 x Santo Adré 2, o que permitiu que o empate desse o título ao Santos, pela melhor campanha.

Campanha do Santos:

18 vitórias; 3 derrotas e 2 empates; 72 gols em 23 jogos.