sexta-feira, 20 de agosto de 2010

NASCIMENTO E OCASO DE DOIS CRAQUES



Ronaldo Luís Nazário de Lima, 34 anos, jogador de futebol. Ronaldo Fenômeno.

Neymar da Silva Santos Jr, 18 anos, jogador de futebol. Neymar.

Duas vidas, duas trajetórias: Neymar, iniciando a difícil carreira de craque. Ronaldo, no ocaso de uma carreira de brilho e conquistas.

Ronaldo surgiu aos 16 anos como uma das maiores revelações do futebol brasileiro e, aos 18, vendido para o PSV Eindhoven, da Holanda, iniciou sua carreira de sucesso, de contusões e superações que lhe deram o apelido de Fenômeno.

Na verdade, a Holanda foi o começo de suas atribulações. Franzino, fizeram com ele um tratamento para ganhar força muscular. Porque, na concepção de certos treinadores, um centroavante deve ter massa, para enfrentar os zagueiros. Como isso, todo o seu metabolismo modificou-se. Primeiro, foram as contusões nos joelhos, fruto de duras rixas com zagueiros truculentos ou do ganho de peso a forçar as articulações, com longas paradas para tratamento e meses de difícil recuperação de operações que, provavelmente, em outros jogadores, decretariam o fim da carreira.

Ronaldo superou tudo e tornou-se o maior goleador de todas as Copas, um jogador de nível difícil de ser superado, no futebol mundial. Mas, a segunda consequência de seu ganho de massa foi a tendência para engordar, principalmente depois dos trinta anos. Agora, como jogador do Corinthians, já está há mais de três meses sem atuar, lutando contra a balança, pensando até mesmo em antecipar a aposentadoria, porque não consegue emagrecer.

Neymar. Considerado craque aos 18 anos, já com conquistas importantes como o Campeonato Brasileiro e Paulista, tem sido mais do que desejado por equipes europeias, dispostas a pagar seu peso em ouro para tê-lo.

E seu peso em ouro ainda é pequeno, porque Neymar, assim como Ronaldo, é um jogador franzino, leve e rápido. Se fosse para o exterior, conforme proposta quase irrecusável do poderoso Chelsea, da Inglaterra, com certeza passaria por um longo período sem jogar partidas oficiais, pois o time inglês, com certeza já tem craques demais em sua posição, e passaria também por um processo de ganho de massa muscular.Além de ter de se adaptar às condições de vida da Europa e do seu futebol, diferente dos trópicos, também seu corpo ainda em formação teria acelerado o metabolismo, com prováveis consequências futuras.

Mas Neymar e o seu clube, o Santos, entraram em acordo: continua no Brasil.

Não sei se em termos financeiros Neymar ganhou ou perdeu. Possivelmente, perdeu. Mas deixa uma lição importante: é necessário preservar os meninos bons de bola da ganância de um futebol – o europeu – rico e poderoso, que é uma verdadeira máquina de construir e destruir craques.

Se Ronaldo venceu e ganhou muito dinheiro, as consequências disso estão claras para todos: aos 34 anos, não consegue mais jogar futebol, quando a vida útil dos atletas atuais tem chegado cada vez mais tarde, graças aos avanços da medicina esportiva e dos modernos meios de preparação física.

O dia do fico do Neymar torna-se, assim realmente importante como exemplo de que é possível segurar os garotos bons de bola, para que eles amadureçam seu futebol e, mais do que isso, terminem de formar seu corpo de maneira mais natural, com o trato da bola em termos de desenvolvimento técnico e tático de um futebol – o brasileiro – que começa a perder sua beleza e criatividade justamente por deixar ir embora tão cedo talentos ainda em formação.

Quase todos os garotos que vão embora cedo, com certeza ganham mais do que se ficassem no Brasil, mas também se perdem nos meandros de times de pouca expressão e, de promessas de craques, tornam-se apenas bons jogadores, acima da média, mas muito abaixo do potencial que o futebol brasileiro poderia lhes proporcionar.

Ronaldo e Neymar – ocaso e começo de carreira – são dois casos que chamam a atenção dos dirigentes e empresários de futebol para refrearem sua ganância, para que possamos recriar a beleza e a alegria do jogo, com a permanência, pelo menos por mais alguns anos, das nossas jovens promessas.

Ou seja, é possível, sim, manter por um pouco mais de tempo craques que surgem.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

SANTOS NA LIBERTADORES DE 2010



O risco de desmonte é grande. Porque há muitos interesses – financeiros, claro – envolvidos. E ganância.

Serão muito burros os empresários donos da maior parte dos contratos dos jovens jogadores do Santos. Porque eles são, realmente, muito jovens.

Por exemplo, Neymar.

Com 18 anos, seria um crime mandar esse moleque para o exterior, apenas por alguns milhares de euros. A espera (é claro, com todos os riscos, mas quem não arrisca...) até os seus 21 ou 22 anos, já consolidado como craque e (por que, não?) até como campeão do mundo, fará com que seu valor chegue a alturas estratosféricas, se não se perder pelos caminhos, amores e desamores da vida, pela complacência dos juízes que não punem botinaços de zagueiros grossos e violentos...

Além disso, é preciso preservar a magia.

O que, convenhamos, convence pouco o cérebro congestionado de euros dos empresários e dirigentes de nosso futebol.

Mas, tentemos, pelo menos, protestar.

No ano que vem, o Santos disputará a Libertadores. Independentemente de quantos ou quais títulos ainda venha a conquistar até lá, podemos sonhar com essa equipe dando trabalho aos retranqueiros da América do Sul.

Os meninos do Santos nos deixam mal acostumados.

Mesmo quando o time perde ou não joga tão bem, lá estão eles insistentemente no ataque, buscando não apenas o gol, mas a mais bela jogada, o drible desconcertante, a velocidade dos passes, a chegada rápida na frente do gol.

Um verdadeiro tormento para as defesas.

Futebol verdadeiramente arte. Que acaba nos viciando: quando assistimos a uma partida normal, tudo parece ficar sem sal, aborrecido, previsível.

Porque os meninos do Santos são isto: o raio que é sempre o mesmo, mas totalmente diferente em cada brilho.

Então, esperemos que, para a Libertadores, tenhamos a base desse time – com os mesmos meninos que nos alegram – a açoitar as defesas de los hermanos, com o apetite de moleques e a grandeza de craques que eles já deverão ter-se tornado até lá.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

FORA DE SÉRIE


Talento não tem idade. Surge, assim, de repente, num lampejo. Mas precisa ter continuidade, confirmação, regularidade. Muitos talentos se perderam no mundo, porque a cabeça não era boa. Porque as tentações são grandes: muito dinheiro, vida fácil, baladas... Mas, quando surge, mesmo que seja um cometa, a riscar os gramados com sua arte, cantemo-lo...

Por isso, publico, abaixo, a crônica do XICO SÁ, publicada dia desses na FOLHA. Aprecie-a, caro amigo, e concorde com ele e comigo: cantemos o talento, o fora-de-série, porque o futebol precisa, e muito, desse tipo de jogador.

Aprenda com o Ganso




XICO SÁ



AMIGO TORCEDOR, amigo secador, você já viu o Ganso em campo? Não estou falando na limitadíssima telinha e muito menos do alcance das câmeras, que veem mas não mostram a força dramática da arena, exibem o homem com um filtro que não representa, para o bem ou para o mal, a sua complexidade, a sua inteireza.



Porque não me venha, meu caro, com essa onda de que o simples existe quando tratamos da monstruosidade humana, seja no futebol ou no teatro, seja no esporte, na firma, no almoxarifado ou em um almoço de domingo com a família. Fora o feijão com arroz e os três acordes do punk rock, só é possível gosto e beleza na essência das complicações.



Repare no amor, por exemplo. É fácil? Veja a mulher que passa agora na calçada. Não carece TPM ou lua cheia, é linda e complicada por natureza. Eis a graça de estar vivo. Não me venha com facilidades que desconfio da esmola.



O mal do futebol é que alguns sabichões, sobretudo os técnicos, o tomaram apenas por um jogo, uma modalidade, ignorando a dramaturgia da existência que o danado embute.



O futebol não é simples, é a nossa manifestação mais barroca, com seus adornos, enfeites, anjinhos e firulas.



O futebol é uma velha igreja de Ouro Preto ou de Olinda. Com seus mistérios, vozes e barulho de correntes de escravos depois da meia-noite.



Aí vêm os mauricinhos da objetividade e dizem: façamos o mais simples, não compliquemos as coisas. Pelo amor de Deus, sem complicação não há beleza. E a beleza, como dizia o poeta mais feio da França, é a promessa de felicidade. A felicidade possível. Complique, meu filho, complique, é o que digo para os meus enteados. A vida é labiríntica e nunca caberá em uma prancheta, mesmo com letrinhas pequenas de bula de remédio.



Então, amigo, você já viu o Ganso em campo? Não o espere em SP, vale uma Vila, não importa para que time se devote. Almoce na praia e, na arquibancada, apresente, para mulher e pimpolhos, muito prazer, minha ideia de futebol é aquele 10, estão vendo? Seguramente os seus tesouros, viciados na TV, estarão de olho na bola neste momento. Aí é que está a pobreza de ver jogo apenas na tela e não no estádio. Ganso joga com e sem ela, abrindo caminhos, arquiteto de vácuos.
Já reparou que muitos passes dele (assistência é a vovozinha!) não são bem compreendidos?



O inferno são os cordeiros treinados apenas para a simplicidade.









http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk3007201020.htm