sábado, 23 de outubro de 2010

PELÉ, 70




Era moleque ainda, talvez dez ou onze anos. Havia uma amiga de minha irmã. Bem mais velha. Não, não é história de sacanagem, não. Ou melhor, é: só que de outro tipo de sacanagem. Essa amiga de minha irmã tinha um pequeno boteco, ali na esquina, quase perto da estação do trem, depois da ponte, à esquerda. Sim, vindo do centro, você passa a ponte, a ponte sobre o rio Verde, à esquerda, depois da linha do trem. Minha irmã morava numa pequena vila, logo depois. Então, essa amiga tinha um boteco: vendia doces, balas... Sei lá que ano era, talvez 1955, 1956, sei lá... Então, um dia, tomava eu conta do boteco de poucos fregueses e lá me chegou um moleque, um pretinho de uns sete, oito anos no máximo, morador ali proximo. Queria doces. Estendeu-me uma nota de cem... cem sei lá o quê... talvez , sim, cem cruzeiros... que era possivelmente uns cem reais hoje? Não sei, só sei que era nota alta... e os doces custavam centavos. Sem troco, nada de doces. Mas, não: o molequinho não queria troco, não, queria todos os doces que aquela nota pudesse comprar, todos... E todos os doces que aquela nota podia comprar era praticamente todos os doces que havia no boteco. Fiz um enorme pacote, feliz com a féria do dia, que iria apresentar à amiga de minha irmã, a Zezé. Pois, então: lá veio a Zezé e eu todo feliz, e ela entra e fica espantada: nenhum doce, nada, na pequena vitrina do boteco, tudo vazio. E eu lhe estendo feliz a nota de cem cruzeiros. Claro, ela não entende. Explico: um molequinho tinha comprado tudo, uma festa, acho, dissera ele. Sim, de fato, uma festa: todos os moleques do bairro se refestelaram com o pacotão de doces. O problema foi, depois, da Zezé: a mãe do menino queria de volta o dinheiro que ele roubara... Mas, aí, o que fazer? Fiquei durante muitos anos com dor na consciência pela surra que o menino levou... Fazer o quê, não é? E então, por que conto essa historia bobinha ou essa historinha boba? Por quê? Ora, porque isso ocorreu lá em Três Corações, terra do Pelé...