terça-feira, 18 de outubro de 2011

CBF E CLUBES DE FUTEBOL SÃO ENTIDADES PRIVADAS





Há certas coisas que eu não entendo e não vou entender nunca.


Está rolando na internet um abaixo-assinado contra o Ricardo Teixeira, presidente da CBF. Eis aí uma coisa bastante idiota de se fazer: abaixo-assinado contra o Ricardo Teixeira.


Por quê?


Bem, vou tentar explicar.


Primeiro, deixe-me esclarecer uma coisa: não tenho absolutamente nada contra nem a favor do senhor Ricardo Teixeira. Também não lhe tenho nenhuma simpatia, e isso é apenas uma coisa pessoal. Como pessoa pública que ele é, posso até reclamar de suas palavras e atitudes. Posso criticá-lo ou elogiá-lo. E, se ele me fizer algo, posso até processá-lo. E só. Mais nada.


Agora, acompanhe meu raciocínio.


Sou torcedor do Santos Futebol Clube. Como tal, desejo que meu time jogue bem, que os jogadores se esforcem pela vitória, que o treinador escolha o melhor esquema de jogo e coloque em campo os melhores. Tenho consciência, no entanto, de que aquilo que eles – os jogadores, o técnico, a diretoria e demais pessoas ligadas ao clube – fazem é o trabalho deles. Ou seja, essas pessoas ganham e, às vezes, ganham muito bem, para isso.


Ora, se a diretoria do Santos for incompetente, o que eu posso fazer? Nada. Não sou sócio do clube, apenas torcedor.


Se o técnico não sabe treinar o time, o que eu posso fazer? Nada. Não sou da diretoria, apenas torcedor.


Se o time não joga direito, se os jogadores fizerem corpo mole, ou se começarem a perder jogos seguidos, o que ou posso fazer? Nada. Apenas ficarei triste e, até, posso deixar de torcer pelo Santos. Com muita pena, claro. Mas não posso fazer nada. Absolutamente nada.


Afinal, se o meu time estiver mal, eu posso sofrer (e, mesmo assim, relativizemos o máximo possível esse “sofrer”, porque a minha vida não muda nada com as vitórias e derrotas de meu time), mas o azar maior será dos próprios jogadores, que se desvalorizarão no mercado; do técnico, que vai perder o emprego; da diretoria, que vai perder sócios; dos sócios, que vão ter seu patrimônio desvalorizado... E assim por diante.


Como torcedor, não posso, não devo e não vou fazer absolutamente nada.


Por quê?


Ora, um time de futebol pertence a um clube que é uma entidade privada. Embora me proporcione momentos de lazer (raiva ou prazer, neste caso), fazer campanha para tirar, por exemplo, o seu presidente é o mesmo que eu fizesse campanha pública para tirar o presidente da Rede Globo de Televisão ou o presidente do Banco Itaú.


Se o presidente da Rede Globo ou do Bando Itaú forem corruptos, inescrupulosos, sacanas, o problema é com a polícia, com a justiça, com os sócios da emissora e do banco. O que eu posso fazer é não mais assistir à Rede Globo e não colocar mais o meu dinheiro no Banco Itaú. Isso eu posso fazer. E, se me sentir prejudicado por um dos dois, recorrer à justiça. Isso também eu posso fazer.


Com um clube de futebol, do qual eu sou apenas torcedor, é a mesma coisa: o que eu posso fazer, se não estiver satisfeito, é deixar de torcer por esse time e não mais ver os seus jogos. Se me sentir prejudicado, como consumidor (por exemplo: me venderem ingresso e não haver o jogo), posso até recorrer à justiça pelos meus direitos


Com a Confederação Brasileira de Desportos, a CBF, na minha opinião, o caso é o mesmo: se o senhor Ricardo Teixeira é incompetente ou corrupto, o problema é dos sócios dessa empresa. Ou da polícia, se houver denúncia de roubo. E da justiça, se houver inquérito.


Acho tão estúpido a torcida de um grande time de São Paulo, de vez em quando, insatisfeita com os jogadores, ir lá na sede do clube cobrar deles “sangue, suor e lágrimas”, quanto fazer campanha para tirar da presidência de uma entidade privada o seu presidente ou quem quer que seja. Se os jogadores desse grande clube não estão correspondendo àquilo que deles se espera, é problema da diretoria, dos sócios, de quem trabalha para esse clube e está perdendo dinheiro, não dos torcedores.


E o pior: tanto a torcida desse clube quanto os abaixo-assinados para tirar o presidente da CBF têm o respaldo de uma certa mídia, que acaba encampando essas teses absurdas, como se isso fosse uma coisa absolutamente comum.


Ou seja: eles dão aval à mistura de público e privado, sem pensar que isso é uma grande estupidez. E depois, ficam querendo que os políticos não façam também essa geleia geral de misturar o que é do Estado com o que é particular.


É tão errado o político meter a mão no dinheiro e nas coisas públicas, como se fossem particulares, quanto querermos interferir nos negócios privados seja de quem for.


Está certo: a CBF é a detentora da marca e das realizações da seleção brasileira de futebol. E daí?


Por mais que a seleção brasileira de futebol ganhe as manchetes de jornais; por mais que mexa com o imaginário dos torcedores de futebol; por mais que digam que ela é “a Pátria de chuteiras” (uma grande frase do Nelson Rodrigues, mas uma grande bobagem também), não temos nada com os desmandos do senhor Ricardo Teixeira no comando da CBF.


Se os governantes de meu país derem dinheiro público para a CBF, isso me diz respeito. E contra isso, podemos, devemos e vamos todos protestar, se esse dinheiro não tiver respaldo legal ou se não for por uma causa absolutamente justa.


Mas, se alguma empresa privada der dinheiro ou propina ao presidente da CBF, isso é problema dessa empresa e de quem deu o dinheiro ou propina. Pode ser caso de polícia e da justiça, mas eu, como cidadão, não tenho absolutamente nada com isso.


Assim, não me venham com essas campanhas idiotas de “Fora Ricardo Teixeira”, ou com abaixo-assinados contra o presidente da CBF. Que ele pode até ser um refinado escroque, ou um idiota completo, ou um corrupto de carteirinha, não tenho nada com isso. Não posso, não devo e não vou fazer absolutamente nada.


Torço pela seleção. Fico chateado e critico o seu futebol, quando não joga bem. Como torcedor, tenho até o direito de achar que fulano ou beltrano não deviam ser convocados ou que o técnico devia ser substituído. Mas é a minha opinião e nada além de dar a minha opinião eu posso fazer de concreto. A única coisa que posso fazer é torcer para que as coisas deem certo. Por isso é que sou e somos todos “torcedores”.


Não vou nunca me compactuar com qualquer mistura de público e privado. Nem no futebol, nem na política... Não vou nunca me compactuar com falcatruas, sejam públicas ou privadas. Mas as falcatruas privadas só me dizem respeito quando me prejudicam (vejam o meu blog “Comida sem cocô”, por exemplo: http://comidasemcoco.blogspot.com/).

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

BRASIL E MÉXICO: ERROS E ACERTOS DO INDIVIDUALISMO

(Marcelo, abraçado por Neymar, e Ronaldinho Gaúcho: gols)



Dois amistosos, duas seleções, nenhum time, ainda.


O jogo contra a Costa Rica não merece comentário, diante da magreza do resultado (1 a zero) e do futebol apresentado por um time quase só de reservas mal entrosados.


Aliás, nem com os jogadores considerados até aqui como titulares têm apresentado um futebol digno do nome que levam nas costas ou digno, sequer, de um verdadeiro time que possa representar o Brasil numa Copa do Mundo, felizmente ainda um pouco distante.


Contra o México, até que o Mano Menezes “inventou” um time razoável (veja escalação abaixo). Hulk, um jogador ainda mal utilizado, mostrou serviço. Pode ser útil. Mas ainda dessa vez o que se viu foi uma Seleção sem brilho, sem jogadas, amarrada, sem padrão de jogo.


Continuo achando que, a seguir nessa toada, Mano não emplaca a Copa.


Um técnico de seleção tem à disposição os melhores jogadores, já que pode escolher. Então, tem dois caminhos: ou estabelece um esquema de jogo que julgue o melhor e convoca os jogadores que possam cumprir esse esquema ou convoca e escala os melhores, procurando um esquema de jogo que melhor se adapte às características de cada um.


Até agora, não vi nem uma coisa nem outra, em Mano Menezes.


Qual é sua filosofia de jogo? Que padrão ele deseja para o time? O que cada um deve fazer dentro de campo, de modo a aproveitar seu talento para o time, para o jogo coletivo?


São perguntas que os próprios jogadores devem se fazer e não encontraram resposta. A Seleção Brasileira joga à base de talentos individuais. Ganha (ou perde) graças a jogadas surgidas de raros momentos de criatividade. No resto do tempo, jogam burocraticamente.


Assim foi contra o México: um gol de falta de Ronaldinho Gaúcho e uma arrancada sensacional do lateral esquerdo Marcelo. Suficientes para ganhar de dois a um de uma seleção mexicana que também não apresentou grande futebol: o gol marcado foi contra, uma infelicidade do zagueiro brasileiro David Luiz , perdeu um pênalti (que levou à expulsão do lateral Daniel Alves), não soube aproveitar a superioridade numérica durante todo o segundo tempo e só teve mais uma oportunidade de gol (cabeçada perfeita de Javier Hernández, defesa sensacional de Jefferson, uma boa revelação para o gol brasileiro) e mais nada.


Enfim, se o Brasil não vai disputar as eliminatórias, é preciso que uma boa quantidade de amistosos com seleções mais fortes, para que se forme um time. Mas, é preciso, sobretudo, que o técnico – seja ele ainda o Mano Menezes ou seja outro que o substitua, o que é mais provável – busque não apenas um padrão de jogo, mas que coloque na cabeça dos jogadores que cada jogo deve ser disputado como se valesse pontos para classificação para a Copa, ou seja, que joguem com concentração, determinação e vontade de vencer.



Serviço

MÉXICO 1x2 BRASIL

11/10/2011

Local: Corona (Torreón, México)

México: Liborio Sánchez (Talavera), Efrain Juárez (Pérez), Rodriguez, Jorge Torres (Moreno), Salcido, Rafa Márquez, Castro, Guardado, Barrera (Andrade), Giovani dos Santos e Javier Hernádez.
Técnico: José Manuel de la Torre.

Brasil: Jefferson, Daniel Alves, David Luiz, Thiago Silva, Marcelo, Lucas Leiva, Fernandinho, Ronaldinho Gaúcho (Hernanes), Lucas (Adriano), Neymar (Elias) e Hulk (Jonas).
Técnico: Mano Menezes.

Gols: David Luiz (contra), aos 9 do primeiro tempo; Ronaldinho Gaúcho, aos 33, e Marcelo, aos 38 do segundo tempo.

Juiz: Marlon Mejía.

Cartões amarelos: Daniel Alves, Juárez, Salcido, Javier Hernández, Lucas Leiva.

Cartão vermelho: Daniel Alves.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

BRASIL E ARGENTINA: DOIS JOGOS, DUAS HISTÓRIAS

 




Brasil e Argentina duelaram em dois jogos, por uma taça denominada SUPERCLÁSSICO DA AMÉRICA, ou algo parecido. O que não tem nenhuma importância.


O que importa, mesmo, é como se comportou a Seleção Brasileira.


No primeiro jogo, há quinze dias, em Buenos Aires, foi uma das piores apresentações das duas seleções, talvez de toda a história de confrontos entre os dois países. Um jogo amarrado, feio, de muitas faltas, em prevaleceram as duas defesas. Ambas as seleções se arrastaram em campo, sem criatividade, sem futebol. Nada se salvou. E o zero a zero do placar corresponde à nota de Brasil e Argentina.


Ontem, 28 de setembro de 2011, no entanto, em jogo realizado em Belém do Pará, a história foi um pouco diferente. Pelo menos, para o Brasil.


Ah, sim, havia uma regra para esses dois jogos: convocação somente de jogadores que atuam em seus países. Mesmo assim, a Argentina encontrou uma brecha para convocar e escalar jogadores que atuam no Brasil. Também isso não importa muito.


O que importou, mesmo, foi a escalação da Seleção Brasileira, com algumas novidades em relação ao jogo anterior e com uma nova postura em campo.


O senhor Mano Menezes, finalmente, se rendeu a um fato óbvio: se quer renovar, que se coloquem em campo jogadores de futuro e não apenas jogadores do passado. Tudo bem que haja uma mescla, mas não se pode renovar sem dar oportunidade a novos talentos. E isso tem de ser feito com o jogador tendo oportunidade de começar jogando e jogar a maior parte do tempo.


Assim, finalmente a dupla que infernizou as defesas sul-americanas no Sub-20, há alguns meses – Neymar e Lucas – voltou a se encontrar e a mostrar que em seus pés, ainda muito jovens, pode estar o futuro do time de Mano. E com uma revelação surpreendente: o lateral esquerdo do Botafogo, Bruno Cortês.


Se Ronaldinho Gaúcho (ou, ainda, o sempre lembrado Kaká, que tem retomado o bom futebol, na Europa) pode ainda dar boas contribuições à Seleção, será, no entanto, com a preparação desses jovens valores que iremos contar na Copa de 2014. Com eles e mais alguns que possam surgir até lá, teremos a criatividade e a molecagem perdidas nesses tempos de futebol de forte marcação, em que têm prevalecido os esquemas rígidos sobre a criatividade.


Os dois a zero foram justamente marcados pelos dois jovens talentos: o de Lucas, uma pintura de gol, em uma arrancada sensacional, desde a defesa brasileira, até o chute certeiro contra a baliza argentina. O de Neymar, numa jogada iniciada por Cortês, o cruzamento da esquerda que pegou o santista bem posicionado na pequena área argentina, para tocar para o gol.


Esperemos que, coerentemente, o senhor Mano Menezes continue a dar oportunidade aos melhores e mais criativos jogadores e não apenas a volantes que apenas cumprem a missão de desarmar e nada criam de novo. Porque, afinal, um jogo se ganha (ou se perde) é no meio de campo.

Serviço:

BRASIL 2x0 ARGENTINA

Brasil: Jefferson, Danilo, Dedé, Réver, Bruno Cortês (Kléber), Ralf, Rômulo, Lucas (Diego Souza), Ronaldinho Gaúcho, Neymar e Borges (Fred).
Técnico: Mano Menezes

Argentina: Orion, Cellay, Dominguez, Desábato, Pillud (Mouche), Augusto Fernández, Canteros (Bolatti), Guiñazu, Montillo, Papa e Vietri.
Técnico: Alejandro Sabella

Juiz: Jorge Larrionda (Uruguai)

Gols: Lucas e Neymar, aos 8 e aos 29 minutos do segundo tempo.

Cartões amarelos: Desábato e Vietri

Local: Estádio Mangueirão, Belém, Pará.

Público: 43.000 pagantes.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

AMISTOSO INTERNACIONAL: BRASIL E GANA



(Comemoração do gol marcado por Leandro Damião)



A Seleção Brasileira não jogou bem. Como tem sido até agora. Não apresentou quase nenhuma evolução do futebol medíocre da era Mano Menezes.


Destaque-se, no entanto, a presença de Ronaldinho Gaúcho.


Confesso que recebi sua convocação com desconfiança. A desconfiança mais no técnico do que no jogador, confesso. Achei que Mano o convocara como uma espécie de tábua de salvação para a ruindade do jogo brasileiro. Mas ele, o Gaúcho, mostrou que ainda é um grande jogador e que pode ser importante, agora que está mais velho, agora que ganhou experiência, à Seleção, talvez até para a Copa de 2014.


O Gaúcho deu à Seleção um certo brilho de criatividade que estava faltando, ao chamar para si a responsabilidade de tabelar, driblar, lançar e cobrar faltas. Liberou Neymar, por exemplo, para praticar melhor o seu futebol e os dois se entenderam bem, como se jogassem juntos há muito tempo.


Então, esse amistoso, vencido com um gol de Leandro Damião – outra boa promessa para a falta de gols do Brasil – serviu apenas para isto: para reapresentar à camisa amarela um jogador que parecia definitivamente decadente, mas que ressurge como, não o salvador da Seleção, mas como o elemento capaz de fazer jogar um grupo de talento que anda meio perdido.


Sobre Gana: quando tem a posse de bola, toca bem, realiza belas jogadas, joga futebol, enfim. Bom de ver. Quando precisa se defender, só sabe dar pancada. Um horror do começo ao fim. Teve um jogador expulso no primeiro tempo e poderia o juiz ter expulsado outros, porque os jogadores africanos abusam da força física, do pontapé e do antijogo.


Sobre Mano Menezes: quando Paulo Henrique Ganso saiu machucado, logo no começo do primeiro tempo, fez uma substituição que desmontou um pouco o esquema ofensivo que ele havia delineado, ao colocar em campo o volante Elias que, aliás, fez uma boa partida. O que eu quero dizer é: ele até arma o time com alguma competência, embora não tenha sido muito feliz ultimamente, mas faz substituições medíocres, que não mudam a forma de jogar do time. Não acho que seja o treinador para a Copa de 2014. Para chegar até lá, vai precisar de muito mais do que tem demonstrado até aqui. Minha aposta é que ele fica mais este ano, mas cede lugar, depois, ao Luiz Felipe Scolari.

Serviço:

BRASIL 1X0 GANA

5.9.2011

Brasil:

Julio César, Daniel Alves, Lucio, Thiago Silva e Marcelo; Lucas Leiva, Fernandinho (Hulk) e Paulo Henrique Ganso (Elias); Ronaldinho Gaúcho, Neymar e Leandro Damião (Alexandre Pato).

Técnico: Mano Menezes

GANA:

Adam Kwarasey; Daniel Opare, John Pantsil, Jonathan Mensah e Samuel Inkmoon; Emmanuel Agyemang-Badu (Adomah), Derek Boateng (Lee Addy), Kwadwo Asamoah (Anthony Annan) e Sulley Muntari (Mohammed Rabiu); Jordan Ayew (Dominik Adiyah) e Isaac Vorsah

Técnico: Goran Stevanovic

Gols: Leandro Damião, aos 44 minutos do primeiro tempo.

Cartões amarelos: Elias, Fernandinho (Brasil); Addy, Opare, Boateng, Mensah, Inkmoon (Gana)

Cartões vermelhos: Opare (Gana)

Árbitro: Mike Dean (ING)

Auxiliares: Simon Long (ING) e Adam Watts (ING)

Local: Estádio Craven Cottage Stadium, em Londres (ING)

domingo, 17 de julho de 2011

COPA AMÉRICA 2011: “LA COPA DE LOS MEDÍOCRES”

(Campos argentinos, onde o bom futebol afundou nesta Copa América)



Neste fim de semana, na Copa América, a zebra desfilou incólume pelos campos argentinos: Argentina, Brasil e Chile, o ABC do futebol sul-americano, está fora das semifinais.


Não, não é chororô de derrotado, não: as três grandes forças do futebol da América do Sul não mereciam tal destino. Tanto Argentina quanto o Brasil e o Chile praticamente “massacraram” seus adversários, com um futebol infinitamente melhor. No entanto, acabaram eliminados.


Ficaram os medíocres: Paraguai, Peru, Venezuela e Uruguai, o último um pouco melhor do que os três primeiros. Talvez a seleção que ainda possa salvar do desastre total essa Copa América. Mas o vexame já está configurado: venceram os que se retrancaram, os que praticaram o anti-jogo, os que não souberam vencer, e só o fizeram porque (e vamos recordar os cronistas antigos) “os deuses dos campos" não  permitiram que os melhores se saíssem bem, que aquele gol feito não entrasse, que aquele goleiro pusesse o pé na lugar "certo", que aquele zagueiro medíocre tirasse de cima da linha a bola que entrava.


Enfim, os "deuses do futebol" estavam furibundos. E resolveram dar uma lição em Messi, Neymar, Ganso, Tévez e companhia. Deliberaram, lá do Olimpo onde assistem, com um humor negro raramente visto, que as melhores seleções da América do Sul tomassem, em conjunto, uma lição inesquecível. A de que, quem não faz, toma.


E tomamos nós, os torcedores do bom futebol, uma ressaca de matar bicho: ficaram os medíocres!


Porque, em sã consciência, o que se pode esperar do futebol de Uruguai (aquele que foi campeão mundial de 50, em cima do Brasil, e depois não fez mais nada, absolutamente nada, em termos de contribuição para a história do futebol), Paraguai (que tem um futebol medroso, retrancado, sem criatividade), Peru (?) e Venezuela (??)???


Não há o que ver daqui para a frente, nesta Copa América.





Esqueçamo-la e coloquemo-la no museu das grandes injustiças do futebol, que são tantas, que não nem vale a pena enumerá-las. Qualquer seleção que seja vencedora não acrescentará nada ao futebol. São apenas representantes daquele joguinho medíocre das retrancas, da sorte dos goleiros em dias inspirados e do azar dos atacantes em dia de pé torto. E dos árbitros – em geral péssimos, nesta Copa América, ao lado dos gramados, também abaixo de qualquer crítica – que não punem as jogadas violentas, que não preservam os craques, que fazem o joguinho da vista grossa para a pancadaria geral das defesas tipo Peru, Venezuela e Paraguai e, um pouco também, por que não?, do Uruguai.


Que vença o pior!


E quem sabe, um dia, o futebol – o bom e velho futebol – renasça das cinzas dessa triste Copa América de 2011.


domingo, 3 de julho de 2011

COPA AMÉRICA: BRASIL ESTREIA COM FUTEBOL CHOCHO












O Brasil, contra a Venezuela, tinha a esperança de gols nos pés de três atacantes – Neymar, Robinho e Alexandre Pato – sob a batuta de um regente, Paulo Henrique Ganso.


Não funcionou.


Parece que, no futebol moderno, que há muito abandonou esquemas ofensivos, com três ou quatro atacantes, as retrancas se dão melhor quando os times jogam desse jeito, com vários atacantes. Por um motivo muito simples, creio eu: futebol é jogo que se ganha no meio de campo, não no ataque.



Ao colocar três atacantes, abre-se mão de um jogador de meio de campo. E um só maestro, no caso do Brasil, Ganso, fica isolado e é facilmente marcado, como aconteceu contra a Venezuela. A criação das jogadas não sai, os atacantes não recebem bolas em condição de finalização e o jogo fica amarrado no meio. É preciso que Paulo Henrique Ganso tenha um companheiro de criação, para dividir não só a responsabilidade das jogadas, mas para dificultar a marcação adversária.


Assim, eu acho que o Brasil precisa abrir mão de um atacante e encontrar mais alguém de talento para armar as jogadas no meio de campo. As jogadas precisam ser trabalhadas para que o ataque funcione. E mais: um meio de campo talentoso abre espaço para jogadores que venham de trás, para surpreender o adversário e não ficar tentando entrar apenas com toque de bola. Ou abrir o jogo pelas pontas.

Por isso, o Brasil empatou com uma Venezuela que abdicou do ataque e só se defendeu. E se defendeu de forma inteligente: marcando o único jogador brasileiro que teria condições de alimentar o ataque, o que facilitou muito a sua vida.


Foi um jogo chocho, embora a Seleção não tenha jogado mal. Só não soube como vencer. E isso vai alimentar, por uma longa semana (já que o próximo compromisso é contra o Paraguai somente no próximo sábado) de longas discussões sobre o que Mano Menezes fez ou não fez; sobre o que Mano Menezes deverá fazer.



Se mantiver o mesmo esquema de jogo, com os mesmos jogadores, o time poderá até passar a ganhar, à medida que ganha entrosamento, mas será sempre com muita dificuldade de fazer gols. A defesa está arrumada. O ataque pode ser bom. Mas é necessário que o meio de campo se povoe de mais talento. Não sei quem pode entrar para dividir as responsabilidades com Ganso, mas essa é a função do técnico.


Ao contrário da Argentina, que apresentou um esquema confuso, o Brasil tem bem claro o desenho do jogo, só precisa, mesmo, acertar esse detalhe, para que o time deslanche. E não adianta os saudosistas de hoje achar que, colocando mais atacantes, isso vai resolver o problema.


De qualquer modo, foi frustrante empatar por zero a zero, com a Venezuela, uma seleção que ainda apresenta um jogo muito primário de só se defender. Não conseguiram os venezuelanos encaixar um só contra-ataque, ou chutar uma única bola no gol brasileiro.

A zebra só não passeou despreocupadamente pelo campo brasileiro, porque não houve risco na defesa. Mas bem que ela ficou ali, na beirada do campo, só esperando uma oportunidade. Que, espero, não venha no jogo contra o Paraguai, um adversário que tem bem mais qualidade que a medíocre Venezuela, com quem só empatamos.


Enfim, esta é a Copa América. Que ainda não empolgou.





A zebra está de olho!!!!!!!!


sábado, 2 de julho de 2011

COPA AMÉRICA COMEÇA COM EMPATE DA ARGENTINA












A Copa América começou ontem, 1 de julho de 2011, com uma zebra desfilando em carro aberto nos campos argentinos.


Embora os próprios argentinos não estejam lá muito satisfeitos com o treinador de sua equipe, nuestros hermanos, porém, davam como pontos contados uma vitória sobre a Bolívia.


Embora os próprios argentinos ainda desconfiem de seu maior jogador, esperavam que Messi fizesse a diferença, num jogo contra a Bolívia.


No entanto, a Argentina ainda saiu ganhando no empate por 1 a 1. Porque, com o futebol confuso que apresentou, a Bolívia só não venceu a partida, porque Moreno, o seu solitário atacante, resolveu fazer firula na frente do goleiro argentino, no momento em que estava sozinho com ele, cara a cara, e podia ter decidido o jogo.


Messi devia ser o comandante da equipe, o jogador que faz a diferença, que dita o ritmo do jogo. Não foi isso o que se viu: confuso, sem inspiração, não conseguiu superar a forte marcação dos bolivianos que, armados na defesa, contavam com raros contra-ataques para tentar surpreender os argentinos.


No segundo tempo, logo no começo, numa cobrança de escanteio, o atacante boliviano tocou de letra, zagueiro e goleiro argentinos se enrolaram e a bola entrou de mansinho, no canto esquerdo, para desespero de los hermanos, que partiram com tudo e mais alguma coisa para cima dos bolivianos.


Com muito sufoco, conseguiram os argentinos um empate, quando Argüero praticamente inventou um gol, ao bater de primeira uma bola espirrada na entrada da área. E foi só.



É claro que a Seleção Argentina ainda é uma das favoritas ao título da Copa América deste ano. Afinal, tem garra, tem jogadores, tem torcida. Mas, o time não convence, a soma das partes não faz um todo que engrandeça o futebol portenho. Mesmo que Messi reencontre seu futebol, o esquema tático não favorece seu toque de bola e suas escapadas brilhantes pelo meio, a entontecer defesas adversárias, como faz na Europa.


Além disso, a ideia tola do técnico argentino de querer fazer seu time jogar como joga o Barcelona só pode complicar as coisas. Nenhum time do mundo conseguirá jogar como o Barça. Por um motivo muito simples: é um sistema de jogo que se adapta àqueles jogadores e que exige muito treino, muita paciência e inteligência. Assim como dizem que correr atrás do adversário cansa, também manter a posse de bola acima de 70% do tempo também traz muito desgaste, pois exige concentração e deslocação constante. Além do estresse para não perder a bola num momento em que propicie contra-ataque do adversário. E a Seleção Argentina não tem os jogadores do Barcelona, não tem o estilo do jogador europeu.


Mais uma coisa: assim como os jogadores argentinos não se adaptam ao estilo europeu do Barcelona, também Messi não mais se adapta ao estilo de jogo sul-americano. Porque Messi, como jogador, não é argentino, é espanhol. Ele só nasceu na Argentina, mas sua formação de craque deu-se toda ela na Espanha, para onde foi aos treze anos (hoje está com 24). Então, o melhor do mundo fica ali, meio aturdido, porque não conta com os seus colegas de clube para fazer o que sabe, nem faz o que sabe porque não conta com os seus colegas de clube. Um dilema!



Enfim, a zebra deu os ares de sua graça. E, esperamos todos, que ela fique apenas nos jogos de nossos adversários. Pois o Brasil também tem um time que, teoricamente, é muito forte, mas não sabemos ainda se vai funcionar na prática. Mano de Menezes e seus pupilos devem pôr as barbas de molho e que Ganso, Neymar, Robinho e Pato possam estar inspirados, para não imitarem o vexame argentino.

Zebra!!!!!!!!

quinta-feira, 23 de junho de 2011

A AMÉRICA CALÇA AS CHUTEIRAS DE NEYMAR: SANTOS CAMPEÃO DA LIBERTADORES





Neymar, o moleque, agora só faz molecagens com a bola. Nada de provocações ao adversário. Nada de cair à toa, para levar cartão amarelo de juízes mal humorados. Nada de dar colocar máscara para comemoração de gol.


Neymar entorta os zagueiros e leva botinadas. Leva empurrões. Leva tapa na cara. E os juizões olham para o outro lado: moleque tem mesmo é que apanhar, para aprender, devem pensar com seus maus humores esses homens do apito.


E Neymar desenha com sua molecagem mais um gol, mais um título. E o Santos F.C. é campeão das Américas, pelos seus passes, pelos seus dribles, pelos seus chutes precisos. Precisa mais?


Claro que o time do Santos não é só Neymar. Nessa final, contou com a visão de jogo, o passe estonteante e perfeito, a colocação extraordinária e a capacidade de arrumar o time de Paulo Henrique Ganso, voltando depois de mais de quarenta dias de recuperação.


Ganso voltou como o maestro, para afinar a orquestra e permitir ao solista Neymar a exposição de sua arte, no limite dos dribles de Garrincha e da técnica espetacular de Pelé.




Por isso, falo desse menino que não é Pelé, que não é Garrincha, que é ele mesmo, um príncipe mulato de cabelos espetados, para desespero de mães de milhares de garotos que o copiam pelos brasis afora.


O Santos não é só Neymar e Ganso. É também uma boa, uma ótima orquestra admiravelmente bem comandada por Muricy Ramalho. Que chegou no momento certo ao time, para transformar a correria e a desorganização em campo (que muitos achavam ser um futebol “pra frente”) em consciência tática e disciplina. Com Muricy, o Santos não fez tantos gols, mas também não tomou tantos, como vinha acontecendo.


O Santos entrou para jogar a final no Pacaembu, contra o uruguaio Peñarol, convicto de suas forças e de suas fraquezas. Não fez um primeiro tempo brilhante, não teve grandes oportunidades de gol, mas soube esfriar o adversário e enganá-lo com a suposição de que continuaria no mesmo diapasão no segundo tempo.


Ledo engano. Em poucos minutos, a genialidade do meio de campo do Santos – que é onde se forma um grande time – apareceu numa tabela entre Ganso (um sutil toque de calcanhar) e Arouca, que encontrou Neymar livre pela esquerda, para dar um tapa de primeira na bola, que passou entre as mãos do surpreendido goleiro uruguaio.


Logo depois, o menino cujo futebol tem crescido a cada partida, Danilo entrou pela direita, driblou o zagueiro e chutou cruzado, no canto direito do mais uma vez surpreendido goleiro uruguaio. Era o prego no caixão e nas pretensões do Penãrol, que ainda tentou uma reação.


E a reação do Peñarol veio, sim, depois do apito final, quando partiram para a briga, numa clara demonstração de que nuestros hermanos, que pareciam ter perdido a mania de querer ganhar no grito e na porrada (principalmente depois do surpreendente quarto lugar da sua seleção na última Copa do Mundo), continuam os mesmos. Brigar para quê, caras pálidas? Se até o gol que tiveram foi feito pelo próprio Santos, numa infelicidade do zagueiro Durval, ao tentar cortar um cruzamento que não tinha a menor chance de se tornar uma jogada perigosa?


Como disse o menino-gênio, e volto mais uma vez a Neymar, num canto do gramado, enquanto a polícia tentava conter os ânimos dos perdedores do outro lado: “deixa eles brigar, vamos comemorar”.


Sim, vamos comemorar, porque, enfim, o Santos, depois de quase cinquenta anos, livra-se (no bom sentido) da sombra de Pelé e torna-se CAMPEÃO DA LIBERTADORES DA AMÉRICA, um sonho que parecia impossível há apenas alguns meses, quando o time parecia sem comando, sem rumo, embora jogasse bem, embora tivesse ganhado alguns títulos.

Serviço:

SANTOS 2 X 1 PEÑAROL

Local: Estádio do Pacaembu, São Paulo, SP
Data: 22.6.2011
Juiz: Sergio Pezzotta (Argentina)
Público: 37.984 pagantes


SANTOS: Rafael, Danilo, Edu Dracena, Durval e Leo (Alex Sandro); Arouca, Adriano, Elano e Ganso (Pará); Neymar e Zé Eduardo.
Técnico: Muricy Ramalho

PEÑAROL: Sosa, González (Albin, depois Estoyanoff), Valdez, Gullermo Rodriguez e Dario Rodriguez; Corujo, Aguiar, Freitas e Mier (Uvetaviscaya); Martinuccio e Olivera.
Técnico: Diego Aguirre

Gols: Neymar a um minuto, Danilo aos 23 e Durval (contra) aos 34 do segundo tempo.
(Yumel, o boneco-robô de minhas filhas, homenageia o ídolo...)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

DE NOVO, O BARCELONA...




Fiquei e estou encantado com o futebol do Barcelona. Realmente é um time extraordinário, que dá gosto ver.


Mas, vamos devagar com o andor, gente.


Quando surgiu a Laranja Mecânica, aquele extraordinário time de futebol comandado por Johan Cruijff – que perdeu a Copa de 94 para a força alemã – parecia que houvera uma revolução no futebol, que muitas outras equipes copiariam o estilo de jogo da Holanda.


Não aconteceu nada disso.


O futebol é assim: de vez em quando, surgem equipes fantásticas, que revolucionam. Porque contam com um cruzamento especial de circunstâncias: um técnico e um grupo especial de jogadores.


A função do técnico é achar o encaixe perfeito entre os jogadores e estabelecer um padrão de jogo. A função do grupo especial de jogadores é combinar o jogo e a técnica individuais com padrão estabelecido. E isso exige inteligência. E isso exige grande preparo técnico. E isso exige alto grau de disciplina e treino. E isso exige a combinação perfeita de gestos (os passes e os deslocamentos) com o entendimento da tática estabelecida.


Para tudo parecer simples.


É como o artista de circo: há um grande esforço no malabarismo, no trapézio, em tudo. Só não percebemos esse esforço. Eles fazem tudo parecer simples. Não há careta de dor no rosto do contorcionista.


No futebol, as coisas são ainda mais complexas, porque se lida com uma equipe de 11 titulares e outros tantos reservas. A excelência só é obtida em casos raros, raríssimos, da conjugação de capacidade técnica, inteligência, criatividade e, por incrível que pareça, disciplina.


Se mudarmos as peças, ou seja, os jogadores, e tentarmos estabelecer o mesmo padrão de jogo que joga o Barcelona, a possibilidade de se obter o mesmo resultado é próxima de zero.


O Barcelona vai continuar jogando este futebol atual, de toque de bola e deslocamentos precisos, de criatividade dentro de um esquema rígido de posse da bola e comando frio do jogo, enquanto estiverem jogando juntos os jogadores atuais. À medida que eles forem sendo modificados, poderá o Barcelona continuar sendo um grande time, mas não terá jamais o mesmo tipo de jogo da atualidade. Nem os times do passado jogaram, nem os time do futuro jogarão como joga o atual.


E mais: nenhuma outra equipe conseguirá – a não ser com um esforço extraordinário ou por um golpe de sorte – jogar como joga o Barcelona. Até as lições óbvias das táticas do Barcelona, como por exemplo a posse de bola no campo adversário, podem se tornar suicidas para equipes que não tenham a mesma capacidade de voltar e marcar o adversário como tem o Barcelona.


Além disso, uma outra equipe, com tática completamente diferente, mas com jogadores inteligentes e bem preparados, pode anular todas as táticas do Barcelona, marcando forte e saindo em contraataques rápidos pelas pontas, para surpreender a defesa adiantada, a partir do estudo detalhado do estilo catalão. Ouso mais: ponha-se o Once Caldas – isso mesmo, o Once Caldas! – em seus melhores dias de retranca (que, acho, só ele sabe fazer) para jogar contra o Barcelona. Posso garantir uma coisa: não apostaria na vitória de nenhum dos dois.


Enfim, admiremo-nos do Barcelona; assistamos a quantos jogos pudermos dessa equipe; encantemos nossos olhos com as jogadas de Messi e Xavi e Iniesta. Porque esse estilo de jogar é só do Barcelona de agora e de nenhum outro time.


E, infelizmente, vai passar.



(Ilustração: André Rocha, do Olho Tático: http://globoesporte.globo.com/platb/olhotatico/2011/03/18/meio-campo-limitado-afasta-flamengo-das-referencias-de-luxemburgo/)

domingo, 29 de maio de 2011

BARCELONA, O MAIS QUE LEGÍTIMO CAMPEÃO DA EUROPA




De vez em quando, um time de futebol encanta o mundo. Muito de vez em quando. Foi assim o Santos de Pelé. É, agora, o Barcelona de Messi. Houve grandes equipes, na história, claro, que quase atingiram a perfeição. Poucas, porém, chegaram a um grau de eficiência e encantamento, como esse time.

Barcelona. Uma verdadeira máquina de jogar futebol.

Alia técnica, toque de bola, inteligência e um craque fora de série. Uma mistura difícil de acontecer. Joga o tempo todo no campo do adversário, sem, no entanto, dar oportunidade ao contraataque. Ao mesmo tempo que valoriza o coletivo, com passes precisos e posse de bola, permite que seu fora de série, o extraordinário Messi, desenhe, crie e conclua jogadas individuais que furam como uma faca na água as defesas adversárias, que não sabem se fazem a falta para matar a jogada (o que poderia levar a mais perigo ainda, com o risco de expulsões e cobranças bem ensaiadas) ou apenas cercam e correm o risco de serem batidos ou, ainda, o que é pior, ao fazerem o cerco, deixam setores sem marcação, por onde entram atacantes e meiocampistas prontos para chutar contra o gol ao receber uma bola precisa do grande jogador.


No estádio de Wembley, Inglaterra, jogaram Manchester United e Barcelona, pela final da Eurocopa, a Libertadores deles. Parecia um jogo difícil. Porque o Manchester também é uma grande equipe, uma das mais poderosas da Europa e do mundo. Dizem, até, que é a única, na atualidade, que tem a possibilidade de vencer o Barça. Apenas a possibilidade, como se viu.

O Manchester jogou oito minutos de futebol. No começo. Quando foi para cima do Barcelona, no entusiasmo de jogar em casa e na esperança de poder assustar o adversário. Mas foi só. A partir dos dez minutos do primeiro tempo, o toque de bola dos espanhóis tomou conta do jogo. Sem pressa, sem firulas, sem cometer faltas, a equipe catalã impôs-se em campo. E os gols foram saindo naturalmente.

Dizer que foi uma tarde mágica, um encantamento, um momento inesquecível do futebol talvez seja até pouco. O Barcelona leva a um nível muito alto o prazer de jogar bola. Vê-lo em campo, num jogo inspirado, traz a mesma vertigem de um poema de Fernando Pessoa, de uma peça de Shakespeare, de um quadro de Picasso, de um filme de Bergman, de um voo de Nijinsky ou de uma obra de Niemayer.

Chamam-nos para o mergulho no desconhecido cada jogada, cada passe, cada lançamento, cada deslocamento, cada chute a gol. Sabemos sempre o que vai acontecer (e o que vai acontecer é sempre muito bom), mas não podemos saber nunca como vai acontecer: se será um drible, um deslocamento, um passe impossível, um lançamento preciso ou, simplesmente, o chute a gol.

Há uma alta dose de improviso naquilo que foi minuciosamente ensaiado e planejado. E essa mistura de tática, técnica, inteligência e individualismo é que faz o time do Barcelona ser diferente, ser único. E quase imbatível.

Só dissemos quase imbatível, porque o futebol é o único esporte coletivo em que um time inferior pode derrotar aquele que parece infinitamente melhor. E esperamos que, num confronto entre o melhor da Europa e o melhor da América, que o melhor da América seja o Santos e que Neymar e companhia leve a melhor sobre Messi e sua extraordinária companhia de mágicos.

Afinal, a esperança...

Serviço:

MANCHESTER 1 x 3 BARCELONA

Local: Wembley, Inglaterra
Data: 28/5/2011
15h45 (horário de Brasília)
Árbitro: Viktor Kassai (Hungria)
Público: 87.695 pagantes.
Manchester: Van der Saar; Fábio (Nani), Ferdinand, Vidic e Evra; Carrick (Shoeles), Giggs, Park e Valencia; Chicharito e Rooney.
Técnico: Alex Ferguson
Barcelona: Valdes; Daniel Alves (Puyol), Mascherano, Piquê e Abidal; Busquets, Xavi e Iniesta; Pedro (Affelay), Messi e Villa (Keita).
Técnico: Pep Guardiola
Gols, no primeiro tempo: Pedro (27 min), Rooney (34 min); no segundo tempo: Messi (8 min) e Villa (24 min).

domingo, 15 de maio de 2011

SANTOS BI-CAMPEÃO PAULISTA










O Campeonato Paulista teve, esse ano, um regulamento estranho: começa com pontos corridos e acaba num mata-mata. E tem times demais na primeira fase: 20. Isso fez com que a fase de pontos corridos não tivesse jogo de volta, como é comum nesse tipo de competição, o que, aparentemente, poderia favorecer quem joga em casa. Mas, ao final, isso não aconteceu e classificaram-se os quatro times grandes da capital, mais a Portuguesa de Desportos, no frigir dos ovos, e três times do interior.

E tudo correu como o previsto: os quatro times grandes eliminaram os três do interior, mais a Portuguesa de Desportos, que insiste em continuar como time pequeno. No mata-mata das quartas de final, outra excentricidade: um único jogo. Se terminasse empatado, pênaltis. Não houve necessidade. O Santos eliminou o São Paulo, o Corinthians eliminou o Palmeiras (se fosse tudo ao contrário, não faria muita diferença) e foram para a final, em jogos de ida e volta, o primeiro no Pacaembu e o segundo, na Vila Belmiro, em dois finais de semana.

Desgastado com a competição paralela da Libertadores, o Santos parecia perder forças diante do rival mais descansado, sem jogos no meio da semana (o Santos teve que ir ao México, na primeira quarta-feira antes do primeiro jogo e à Colômbia, antes do segundo jogo). Mas, ao final, prevaleceu a melhor técnica do time santista: mesmo sem seu jogador-chave, Paulo Henrique Ganso, que se contundiu no jogo do Pacaembu, venceu sem muitos sustos o Sport Clube Corinthians, na Vila Belmiro, por 2 x 1.

O primeiro tempo teve domínio total do time de Neymar, que poderia ter goleado o adversário: Patrick, o substituto de Ganso, perdeu um gol claro, na frente do goleiro, ao chutar para fora; Arouca chutou uma bola indefensável na trave e Neymar perdeu gol feito, numa defesa espetacular de Júlio César. Mas o Santos saiu na frente, com um gol de Arouca, numa jogada de Zé Eduardo.

No segundo tempo, o Corinthians resolveu jogar bola e pressionou o Santos, mas encontrou uma defesa sólida, sem dar oportunidades de gol a seus atacantes. Quem esteve mais perto de marcar foi sempre o Santos, em perigosos contra-ataques. Numa jogada pela esquerda, Neymar se livra do marcar, chuta fraco, mas Júlio César aceita, num frango digno dos grandes goleiros: Santos dois a zero. O Corinthians parte para o ataque e consegue um gol de fora da área, num cruzamento despretensioso de Moraes, que entrara no segundo tempo, em que a bola passa por todo mundo e o goleiro Rafael falha e a bola entra. Com dois a um, o Santos tratou de segurar o jogo, sem que o Corinthians conseguisse ameaçar.

Final: Santos, campeão. Com justiça. Pois é um time que ganhou consistência defensiva, a partir da contratação do técnico Muricy, que pôs ordem no time, que deixou de correr desesperadamente e tomar gols bobos, o que o deixava instável, e provou ser a pessoa certa para começar, depois da Libertadores e durante o Campeonato Brasileiro (já que o calendário do futebol brasileiro continua meio louco) a montar um time que pode ainda dar muitas alegrias a seu torcedor.

Parabéns, Santos!




E, para finalizar nossas observações sobre o regulamento do Campeonato Paulista, espero que esse regulamento – embora estranho, embora meio torto – se mantenha, para comprovar que pode realmente dar certo. E tomara que a Federação Paulista comece a pensar a diminuir o número de times de sua primeira divisão.




Serviço:

Santos 2 x 1 Corinthians
Local: Vila Belmiro, Santos
Data: 15.5.2011, às 16h
Árbitro: Luiz Flávio de Oliveira
Auxiliares: David Botelho Barbosa e Tatiane Sacilotti dos Santos Camargo
Público: 14.322
Renda: R$ 745.610,00
Gols: Arouca (16 minutos do primeiro tempo); Neymar (38 minutos do segundo tempo); Morais (40 minutos do segundo tempo).

Santos: Rafael, Jonathan (Pará), Edu Dracena, Durval, Leo (Alex Sandro), Arouca, Adriano, Elano, Alan Patrick (Rodrigo Posseibon), Neymar e Zé Eduardo.
Técnico: Muricy Ramalho.
Corinthians: Júlio César, Alessandro, Leandro Castan, Fábio Santos, Ralf, Paulinho (Ramirez),, Bruno César (Morais), Jorge Henrinque, Dentinho (Willian) e Liedson.
Técnico: Tite.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

ADEUS, FENÔMENO!

Enquanto via brilhar na seleção sub-20 o futebol de Neymar, 19 anos, nos campos peruanos, aqui no Brasil um dos maiores jogadores de todos os tempos tomava a decisão de parar de jogar futebol: Ronaldo, o fenômeno, aos 35 anos de vida mais 20 de futebol.

Com a idade que Neymar tem agora, Ronaldo virou ídolo do Cruzeiro e de quem gosta de futebol, com esse físico:



Vendido ao PSV, da Holanda, o rapaz franzino de futebol refinado foi submetido a um tratamento rigoroso para ganhar massa muscular, porque, na concepção europeia, jogador tem de ser atleta, tem de ser forte, não só para suportar os pontapés e o jogo de corpo de seus duros zagueiros pernas-de-pau, mas também o frio inverno. Como se jogador fosse urso e hibernasse.

A partir daí, Ronaldo ganhou, sim, força física e seu futebol levou-o aos píncaros da glória nos campos e ao sofrimento fora dele. Com maior massa muscular, seus joelhos sofreram. E contusões gravíssimas só não o fizeram abandonar precocemente os campos, porque o fenômeno não era apenas um dos melhores jogadores de futebol de todos os tempos, mas também um exemplo de perseverança e força de vontade.



Recuperado de operações complexas, através de longos e dolorosos tratamentos de fisioterapia, seu organismo, no entanto, começou pouco a pouco a não mais reagir a tratamentos de emagrecimento e ele, nos últimos anos, engordou e engordou e engordou.

Seu metabolismo fora definitivamente modificado. E, aos trinta e quatro anos, quando ainda havia muito futebol a ser jogado, diante do atual grau de preparação física, Ronaldo chegou ao Corinthians como uma espécie de refúgio derradeiro para a sua já famosa força de vontade. O carinho da torcida e o fato de estar no Brasil poderiam fazê-lo voltar à alegria do futebol, com um corpo menos rotundo. Mas, inúteis os seus esforços: ele não conseguiria baixar dos quase cem quilos que o tornavam quase um lutador de sumô, entre seus companheiros esguios e ágeis.

O fenômeno futebolístico continuava intacto: o raciocínio, a habilidade, a colocação, o passe, o chute. Mas cada corrida, cada movimento, cada deslocamento e cada jogada deviam torna-se, para ele, um tormento de dor física e moral. Física porque, segundo suas próprias palavras, o corpo não acompanhava mais o raciocínio; moral, porque assumia para si, como homem e com a história de vida que tem, a responsabilidade pelas vitórias e derrotas do time.


Mas, a torcida corintiana, estúpida e estupidificada pela ideia de que seu time tem de ganhar a qualquer custo, impunha ao homem Ronaldo a humilhação e a responsabilidade pelos fracassos, principalmente pela precoce eliminação da Copa Libertadores da América, desse ano, diante do fraco e apenas esforçado Tolima.

Não. Ronaldo não tem a mínima responsabilidade pela humilhante eliminação desse time burocrático e sem inventividade que é o Corinthians Paulista de hoje. Tem razoáveis e até bons jogadores, mas não é uma equipe brilhante: parece não ter “liga” entre as peças, não tem brilho. Qualquer treinador, de qualquer equipe, por mais fraca que seja, se tiver dois neurônios, arma seu time para não deixar o Corinthians ganhar. Porque joga um futebol previsível, sem qualquer criatividade. E nenhum centroavante resolve, quando a bola não chega com frequência a seus pés em jogadas que propiciem o gol. Muito de vez em quando, algum jogador corintiano tem um lampejo e consegue uma jogada vertical, de toques rápidos e de chegada à área adversária, muito de vez em quando.

Mas, na entrevista de despedida, Ronaldo, o fenômeno, um dos maiores jogadores de todos os tempos, chorando muito, humildemente pediu desculpas à torcida corintiana, por não haver obtido o sucesso esperado – talvez muito mais por ele do que pela própria torcida.

Não, Ronaldo, você não tem que pedir desculpas. Você não vai deixar de ser o que é só porque meia dúzia de críticos imbecis diziam-no gordo, mas não apenas gordo, gordo no sentido mais pejorativo que se pode dar a um ser humano e porque outras duas dúzias de torcedores ainda mais imbecis e fanatizados o declaram culpado das derrotas de um time que – só eles não vêem – é apenas razoável, talvez até medíocre.

Adeus, Ronaldo!

Você sai dos campos de futebol para entrar para a História (com H maiúsculo) do esporte mundial. Guardaremos de você uma lembrança indelével e a gratidão por gols e jogadas maravilhosas.


Para encerrar: fico torcendo para que o ágil, leve e fantástico Neymar não vá tão cedo para a Europa e, se for, não caia nas mãos criminosas dos mesmos imbecis que mudaram o físico de Ronaldo. Eles não sabem que, no futebol, a arte está acima do físico.

SELEÇÃO SUB-20: O ESPETÁCULO E A TAÇA



Nos primeiros minutos de domingo, 13 de fevereiro de 2011, pude assistir a uma das mais belas e perfeitas partidas de uma seleção brasileira. A Seleção Sub-20, treinada por Ney Franco, na partida final do campeonato sul-americano da categoria, contra a seleção do Uruguai.

Os uruguaios só precisavam do empate, para serem campeões, já que haviam conquistado dez pontos, contra nove dos brasileiros. Parece que entraram de ressaca, pela já garantida classificação para as Olimpíadas – um feito, depois de mais várias décadas de ausência – ou de salto alto, pensando que poderiam até ganhar do Brasil.

No entanto, uma exibição de gala de Neymar (o grande nome da competição, sem dúvida nenhuma) e de Lucas (um jogador também diferenciado) não deixou dúvidas sobre a superioridade técnica de uma seleção que dispõe de alternativas de jogo e da individualidade de jogadores que sabem o que fazer com a bola.

Não é preciso mais elogiar a capacidade técnica de Neymar – 19 anos completados durante a competição – mas, a surpresa do jogo de Lucas maravilhou os espectadores do estádio Monumental, de Arequipa, com três gols maravilhosos.

A seleção sub-20 apanhou muito, durante toda a competição, diante do olhar complacente de árbitros imbecis, que não conseguem tirar de sua cabeça a ideia de que jogadores leves, como Neymar, caem, sim, ao choque mais forte e que nem por isso estão fingindo ou tentando enganar a arbitragem. O que não se admite é que permitam a violência, o jogo estúpido de zagueiros ruins de bola, a tentarem parar na porrada as jogadas refinadas de quem pratica o bom e belo futebol. Neymar foi vítima de perseguição dessa arbitragem desqualificada: levou muitos pontapés, a maioria nem falta foi marcada, e ainda teve vários cartões amarelos por faltas muito menos graves ou por simulações que, realmente, não aconteceram.

O Brasil teve apenas uma derrota: para a fraca seleção argentina, quando perdeu, aos cinco minutos de jogo sua zaga: primeiro, por contusão e, imediatamente depois, por expulsão, num pênalti que, se houve, não justificava expulsão. Enfim, los hermanos árbitros tudo fizeram para tentar obscurecer uma conquista que era óbvia, pela superioridade de nossos moleques. E moleques no melhor sentido da palavra: jogadores hábeis, leves, que gostam de jogar futebol e gostam, acima de tudo, de vencer e dar espetáculo.

Enfim, um jogo que deve ficar na história: três gols de Lucas, dois de Neymar e um de William, para fazer a soma inédita em final de competição como o Sul-americano sub-20 de 6 (seis) a zero, nos esforçados e atônitos uruguaios.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

TORCIDAS SÃO APENAS TORCIDAS, NADA MAIS QUE TORCIDAS




Volto a falar, hoje, do Sport Club Corinthians Paulista. Mais especificamente, de sua torcida, de sua emblemática torcida. Aliás, mais que emblemática, hoje é problemática.

Todo time de futebol sonha ter uma grande torcida. E é a forma certa de dizer: um time tem uma torcida. Não pode uma torcida ter um time de futebol. Ou seja, um time não pertence à torcida, mas é uma sociedade civil, um clube que tem sócios e efetua negócios com os quais sustenta sua folha de pagamentos.

Os torcedores são apenas torcedores, nada mais.

No entanto, a torcida corintiana acha-se dona do time, dona do clube: comparece ao clube, aos treinos, para cobrar atitude dos jogadores; ameaça os atletas e até mesmo a diretoria; depreda o patrimônio do clube, com atos de vandalismo. Trata o clube como se ela, a torcida, que só em parte alimenta o clube com sua presença nos jogos, fosse a dona absoluta do clube.

Essa atitude não é, claro, privilégio dos corintianos: tem-se espalhado por todo o País, e praticamente todo grande time sofre as mesmas pressões. Tomo a torcida corintiana como exemplo, por ser a mais fanática, além de ser uma das maiores do Brasil.

Como surgiu esse fanatismo?

Há uma fato emblemático: em 1976, o Corinthians devia disputar uma semifinal do Campeonato Brasileiro (note: era uma semifinal) com o Fluminense no Maracanã, no Rio de Janeiro. Houve um fato extraordinário: 70 mil ingressos foram adquiridos pela torcida corintiana que, literalmente, invadiu a capital fluminense e o estádio, num episódio de deslocamento populacional raramente visto no mundo para um só evento esportivo, até aquela data.

Essa “invasão” serviu para alimentar e atiçar a “mística” da torcida “fiel”, aquela que faz os maiores sacrifícios pelo time. E essa mística só cresceu a partir daí, num processo para o qual contribuíram não apenas os dirigentes corintianos e a própria torcida, mas também a grande mídia, que achou um filão de venda de notícias, de jornais, de revistas. O monstro estava criado e precisava ser continuamente alimentado. E foi o que aconteceu nesses últimos trinta e poucos anos.

A ideia de organização das torcidas em blocos compactos – com indivíduos alucinados e incentivados pelo efeito da coesão e quase anonimato do grupo, indivíduos dispostos a tudo, a matar e a morrer, quando se juntam sob a bandeira de um clube, especialmente a bandeira corintiana, mas não só corintiana, mas também palmeirense, santista, cruzeirense, gremista etc., etc., etc. – espalhou-se por todos os campos, com consequências desastrosas.

Essas torcidas organizadas transformaram-se em hordas de bárbaros, porque fazem de simples torcedores que, na vida comum, são jovens cordatos e de bom comportamento, verdadeiros guerreiros da causa imbecil de morrer ou matar em defesa de uma bandeira, em lides medievais que terminam sempre na barbárie do vandalismo inconsequente e, pior, em batalhas em que já morreram muitos desses jovens.

E são essas torcidas que, fanatizadas, não compreendem que um jogo de futebol é só um jogo de futebol e nada mais. Quando meu time perde, é claro que fico chateado e essa chateação deve durar os noventa minutos da partida. Acabou o jogo, a vida continua. Perde-se hoje para vencer amanhã. Ou depois de amanhã. Ou um dia. Nada, absolutamente nada, justifica a atitude de corintianos e de quaisquer outras torcidas de se tornar donas absolutas do time, de se considerar acima de todas as regras civilizadas da sociedade, para agredir jogadores, para depredar o patrimônio do clube, para sair batendo em adversários ou matando-os, apenas porque usam uma camisa do time adversário.

Toda essa minha diatribe tem uma razão: após perder a vaga na Libertadores para o Tolima (post anterior) os jogadores do Sport Club Corinthians Paulista tiveram sua vida ameaçada por torcedores, seus carros depredados e até o ônibus do clube foi atacado com paus e pedras. Pichações, gritos, ameaças, agressões e até mortes têm sido registrados em todos os lugares, não só Brasil mas em muitos outros países, como manifestações de instintos muito bárbaros de cidadãos que se julgam acima do bem e do mal, acima da lei e do bom senso, só porque torcem fanaticamente por um clube de futebol.

Futebol é uma das grandes invenções humanas, no terreno esportivo. Um jogo que deixa siderado um planeta, pela beleza, pela inventividade e pela tensão que provoca. Mas é só um esporte, um jogo, e nada mais. Nada, absolutamente nada, justifica que alguém mate ou morra por um time de futebol.

E mais: um time possui uma torcida. Não uma torcida – qualquer torcida – possui um time e, por isso, se julga na obrigação de cobrar o que quer que seja, principalmente com violência.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

LIBERTADORES E CORINTHIANS: SÓ DECEPÇÕES!



O Corinthians protagonizou mais uma decepção na Libertadores. Aliás, na pré-Libertadores: jogando muito mal, perdeu para o Tolima, da Colômbia, por dois a zero, ontem, 2 de fevereiro de 2011.

Era uma derrota mais do que prevista. Se eu não tivesse respeito ao time da Zona Leste, teria já publicado antes do jogo a previsão de que isso aconteceria. Porque o time do Corinthians é o tipo do time “engana que eu gosto”. Não tem jogado nada. Seu futebol é burocrático e previsível. Ninguém arrisca nada, até o Dentinho parece que perdeu a ousadia, o brilho. Todo mundo faz o chamado “arroz com feijão”.

O Corinthians é um time “relâmpago”, ou seja, tem raros e rápidos brilhos, o que ilude o torcedor, pensando que esses momentos são suficientes para levar o time à conquista de títulos. Ilude o observador o toque de bola que não leva a nada.

Quando joga o Danilo – que é, também, um jogador que tem repentinos brilhos de craque, mas se acomoda ao jogo na maior parte do tempo – há alguns poucos momentos de criatividade no meio do campo. Mas também são raros.

A defesa é uma lástima: joga fazendo a linha burra, tentando provocar impedimentos, o que deixa o adversário totalmente à vontade para chegar na “cara do gol”. Só não toma mais gols porque o índice de aproveitamento dos atacantes do times que o Corinthians tem enfrentado ultimamente é lamentável. No jogo de ontem, o Tolima podia ter aplicado já uma goleada histórica no primeiro tempo da partida.

Jorge Henrique – que eu achava que era o craque do time – anda mais perdido que cego em tiroteio. Parece que se esqueceu de como se joga futebol e afunda na mediocridade dos demais jogadores.

Roberto Carlos. Está aí um cara que faz o que está além de sua idade. Mas é só. E não se pode exigir mais de alguém como ele. Não precisa provar o que sabe fazer, mas sua posição – lateral – não é a posição de jogador que tenha de resolver uma partida ou arrumar o time em campo, como a velha posição do camisa 10, do meia habilidoso que toca a bola e abre as defesas adversárias.

E chegamos ao Ronaldo. Acho que é um desrespeito à história desse jogador colocá-lo em campo nas condições físicas em que se encontra. Quando vemos o Corinthians e o adversário – seja ele quem for – perfilados para ouvir o hino, vemos 21 jogadores de futebol e um lutador de sumô entre eles. Ronaldo não tem mais condições de perder peso. Seu organismo – depois de praticamente duas décadas de modificações fisiológicas mais o tempo parado por conta de contusões – resiste a qualquer dieta para diminuição massa de gordura que, infelizmente, arredonda definitivamente sua silhueta. Uma pena. Porque, o gênio ainda está lá, dentro da lâmpada obesa e redonda, parece que definitivamente apagada.

Enfim, o time do Corinthians é o que é: um arremedo de time, sem alma, sem padrão de jogo, preguiçoso e burocrático. O treinador – Tite – pode não ser um gênio, mas é uma pessoa que tem bons conhecimentos de futebol, mas não vai, nunca, conseguir dar um jeito num time que se acomodou, que não tem “liga”, que não corre e, o que é pior, que se acha bom e por isso pensa que pode resolver uma partida a qualquer momento, o que nem sempre acontece: não há mais, no futebol, time inocente. Todo mundo sabe como eles jogam e, sem o brilho individual dentro de um coletivo forte, as vitórias são raras.

Uma emenda final: que a torcida exija, sim, que se busquem soluções para um time da tradição da “fiel”, da “nação” corintiana, mas não pode, absolutamente, fazer isso com violência e depredação.

Serviço:

DEPORTES TOLIMA 2X0 SPORT CLUB CORINTHIANS PAULISTA
Data: 02/02/2011 - 22h00
Local: Manuel Murillo Toro
Árbitro: Roberto Silvera
Auxiliares: Mauricio Espinoza e Carlos Changala


Deportes Tolima
Técnico: Hernán Torres
12. Antony Silva
6. Gerardo Vallejo
2. Julián Hurtado
5. Yair Arrechea
24. Félix Noguera
21. Diego Chará
8. Gustavo Bolivar
13. Rafael Castillo (saiu)
16. Santoya (entrou)
10. Elkin Murillo (saiu)
18. Piedrahita (entrou)
25. John Hurtado
19. Wilder Medina (saiu)
7. Closa (entrou)

Corinthians
Técnico: Tite

1. Júlio César
2. Alessandro
3. Chicão
4. Leandro Castan
16. Fábio Santos (saiu)
19. Edno (entrou)
5. Ralf
8. Jucilei
7. Paulinho (saiu)
20. Danilo (entrou)
23. Jorge Henrique
11. Dentinho (saiu)
18. Ramirez (entrou e foi expulso)
9. Ronaldo