terça-feira, 18 de outubro de 2011

CBF E CLUBES DE FUTEBOL SÃO ENTIDADES PRIVADAS





Há certas coisas que eu não entendo e não vou entender nunca.


Está rolando na internet um abaixo-assinado contra o Ricardo Teixeira, presidente da CBF. Eis aí uma coisa bastante idiota de se fazer: abaixo-assinado contra o Ricardo Teixeira.


Por quê?


Bem, vou tentar explicar.


Primeiro, deixe-me esclarecer uma coisa: não tenho absolutamente nada contra nem a favor do senhor Ricardo Teixeira. Também não lhe tenho nenhuma simpatia, e isso é apenas uma coisa pessoal. Como pessoa pública que ele é, posso até reclamar de suas palavras e atitudes. Posso criticá-lo ou elogiá-lo. E, se ele me fizer algo, posso até processá-lo. E só. Mais nada.


Agora, acompanhe meu raciocínio.


Sou torcedor do Santos Futebol Clube. Como tal, desejo que meu time jogue bem, que os jogadores se esforcem pela vitória, que o treinador escolha o melhor esquema de jogo e coloque em campo os melhores. Tenho consciência, no entanto, de que aquilo que eles – os jogadores, o técnico, a diretoria e demais pessoas ligadas ao clube – fazem é o trabalho deles. Ou seja, essas pessoas ganham e, às vezes, ganham muito bem, para isso.


Ora, se a diretoria do Santos for incompetente, o que eu posso fazer? Nada. Não sou sócio do clube, apenas torcedor.


Se o técnico não sabe treinar o time, o que eu posso fazer? Nada. Não sou da diretoria, apenas torcedor.


Se o time não joga direito, se os jogadores fizerem corpo mole, ou se começarem a perder jogos seguidos, o que ou posso fazer? Nada. Apenas ficarei triste e, até, posso deixar de torcer pelo Santos. Com muita pena, claro. Mas não posso fazer nada. Absolutamente nada.


Afinal, se o meu time estiver mal, eu posso sofrer (e, mesmo assim, relativizemos o máximo possível esse “sofrer”, porque a minha vida não muda nada com as vitórias e derrotas de meu time), mas o azar maior será dos próprios jogadores, que se desvalorizarão no mercado; do técnico, que vai perder o emprego; da diretoria, que vai perder sócios; dos sócios, que vão ter seu patrimônio desvalorizado... E assim por diante.


Como torcedor, não posso, não devo e não vou fazer absolutamente nada.


Por quê?


Ora, um time de futebol pertence a um clube que é uma entidade privada. Embora me proporcione momentos de lazer (raiva ou prazer, neste caso), fazer campanha para tirar, por exemplo, o seu presidente é o mesmo que eu fizesse campanha pública para tirar o presidente da Rede Globo de Televisão ou o presidente do Banco Itaú.


Se o presidente da Rede Globo ou do Bando Itaú forem corruptos, inescrupulosos, sacanas, o problema é com a polícia, com a justiça, com os sócios da emissora e do banco. O que eu posso fazer é não mais assistir à Rede Globo e não colocar mais o meu dinheiro no Banco Itaú. Isso eu posso fazer. E, se me sentir prejudicado por um dos dois, recorrer à justiça. Isso também eu posso fazer.


Com um clube de futebol, do qual eu sou apenas torcedor, é a mesma coisa: o que eu posso fazer, se não estiver satisfeito, é deixar de torcer por esse time e não mais ver os seus jogos. Se me sentir prejudicado, como consumidor (por exemplo: me venderem ingresso e não haver o jogo), posso até recorrer à justiça pelos meus direitos


Com a Confederação Brasileira de Desportos, a CBF, na minha opinião, o caso é o mesmo: se o senhor Ricardo Teixeira é incompetente ou corrupto, o problema é dos sócios dessa empresa. Ou da polícia, se houver denúncia de roubo. E da justiça, se houver inquérito.


Acho tão estúpido a torcida de um grande time de São Paulo, de vez em quando, insatisfeita com os jogadores, ir lá na sede do clube cobrar deles “sangue, suor e lágrimas”, quanto fazer campanha para tirar da presidência de uma entidade privada o seu presidente ou quem quer que seja. Se os jogadores desse grande clube não estão correspondendo àquilo que deles se espera, é problema da diretoria, dos sócios, de quem trabalha para esse clube e está perdendo dinheiro, não dos torcedores.


E o pior: tanto a torcida desse clube quanto os abaixo-assinados para tirar o presidente da CBF têm o respaldo de uma certa mídia, que acaba encampando essas teses absurdas, como se isso fosse uma coisa absolutamente comum.


Ou seja: eles dão aval à mistura de público e privado, sem pensar que isso é uma grande estupidez. E depois, ficam querendo que os políticos não façam também essa geleia geral de misturar o que é do Estado com o que é particular.


É tão errado o político meter a mão no dinheiro e nas coisas públicas, como se fossem particulares, quanto querermos interferir nos negócios privados seja de quem for.


Está certo: a CBF é a detentora da marca e das realizações da seleção brasileira de futebol. E daí?


Por mais que a seleção brasileira de futebol ganhe as manchetes de jornais; por mais que mexa com o imaginário dos torcedores de futebol; por mais que digam que ela é “a Pátria de chuteiras” (uma grande frase do Nelson Rodrigues, mas uma grande bobagem também), não temos nada com os desmandos do senhor Ricardo Teixeira no comando da CBF.


Se os governantes de meu país derem dinheiro público para a CBF, isso me diz respeito. E contra isso, podemos, devemos e vamos todos protestar, se esse dinheiro não tiver respaldo legal ou se não for por uma causa absolutamente justa.


Mas, se alguma empresa privada der dinheiro ou propina ao presidente da CBF, isso é problema dessa empresa e de quem deu o dinheiro ou propina. Pode ser caso de polícia e da justiça, mas eu, como cidadão, não tenho absolutamente nada com isso.


Assim, não me venham com essas campanhas idiotas de “Fora Ricardo Teixeira”, ou com abaixo-assinados contra o presidente da CBF. Que ele pode até ser um refinado escroque, ou um idiota completo, ou um corrupto de carteirinha, não tenho nada com isso. Não posso, não devo e não vou fazer absolutamente nada.


Torço pela seleção. Fico chateado e critico o seu futebol, quando não joga bem. Como torcedor, tenho até o direito de achar que fulano ou beltrano não deviam ser convocados ou que o técnico devia ser substituído. Mas é a minha opinião e nada além de dar a minha opinião eu posso fazer de concreto. A única coisa que posso fazer é torcer para que as coisas deem certo. Por isso é que sou e somos todos “torcedores”.


Não vou nunca me compactuar com qualquer mistura de público e privado. Nem no futebol, nem na política... Não vou nunca me compactuar com falcatruas, sejam públicas ou privadas. Mas as falcatruas privadas só me dizem respeito quando me prejudicam (vejam o meu blog “Comida sem cocô”, por exemplo: http://comidasemcoco.blogspot.com/).

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

BRASIL E MÉXICO: ERROS E ACERTOS DO INDIVIDUALISMO

(Marcelo, abraçado por Neymar, e Ronaldinho Gaúcho: gols)



Dois amistosos, duas seleções, nenhum time, ainda.


O jogo contra a Costa Rica não merece comentário, diante da magreza do resultado (1 a zero) e do futebol apresentado por um time quase só de reservas mal entrosados.


Aliás, nem com os jogadores considerados até aqui como titulares têm apresentado um futebol digno do nome que levam nas costas ou digno, sequer, de um verdadeiro time que possa representar o Brasil numa Copa do Mundo, felizmente ainda um pouco distante.


Contra o México, até que o Mano Menezes “inventou” um time razoável (veja escalação abaixo). Hulk, um jogador ainda mal utilizado, mostrou serviço. Pode ser útil. Mas ainda dessa vez o que se viu foi uma Seleção sem brilho, sem jogadas, amarrada, sem padrão de jogo.


Continuo achando que, a seguir nessa toada, Mano não emplaca a Copa.


Um técnico de seleção tem à disposição os melhores jogadores, já que pode escolher. Então, tem dois caminhos: ou estabelece um esquema de jogo que julgue o melhor e convoca os jogadores que possam cumprir esse esquema ou convoca e escala os melhores, procurando um esquema de jogo que melhor se adapte às características de cada um.


Até agora, não vi nem uma coisa nem outra, em Mano Menezes.


Qual é sua filosofia de jogo? Que padrão ele deseja para o time? O que cada um deve fazer dentro de campo, de modo a aproveitar seu talento para o time, para o jogo coletivo?


São perguntas que os próprios jogadores devem se fazer e não encontraram resposta. A Seleção Brasileira joga à base de talentos individuais. Ganha (ou perde) graças a jogadas surgidas de raros momentos de criatividade. No resto do tempo, jogam burocraticamente.


Assim foi contra o México: um gol de falta de Ronaldinho Gaúcho e uma arrancada sensacional do lateral esquerdo Marcelo. Suficientes para ganhar de dois a um de uma seleção mexicana que também não apresentou grande futebol: o gol marcado foi contra, uma infelicidade do zagueiro brasileiro David Luiz , perdeu um pênalti (que levou à expulsão do lateral Daniel Alves), não soube aproveitar a superioridade numérica durante todo o segundo tempo e só teve mais uma oportunidade de gol (cabeçada perfeita de Javier Hernández, defesa sensacional de Jefferson, uma boa revelação para o gol brasileiro) e mais nada.


Enfim, se o Brasil não vai disputar as eliminatórias, é preciso que uma boa quantidade de amistosos com seleções mais fortes, para que se forme um time. Mas, é preciso, sobretudo, que o técnico – seja ele ainda o Mano Menezes ou seja outro que o substitua, o que é mais provável – busque não apenas um padrão de jogo, mas que coloque na cabeça dos jogadores que cada jogo deve ser disputado como se valesse pontos para classificação para a Copa, ou seja, que joguem com concentração, determinação e vontade de vencer.



Serviço

MÉXICO 1x2 BRASIL

11/10/2011

Local: Corona (Torreón, México)

México: Liborio Sánchez (Talavera), Efrain Juárez (Pérez), Rodriguez, Jorge Torres (Moreno), Salcido, Rafa Márquez, Castro, Guardado, Barrera (Andrade), Giovani dos Santos e Javier Hernádez.
Técnico: José Manuel de la Torre.

Brasil: Jefferson, Daniel Alves, David Luiz, Thiago Silva, Marcelo, Lucas Leiva, Fernandinho, Ronaldinho Gaúcho (Hernanes), Lucas (Adriano), Neymar (Elias) e Hulk (Jonas).
Técnico: Mano Menezes.

Gols: David Luiz (contra), aos 9 do primeiro tempo; Ronaldinho Gaúcho, aos 33, e Marcelo, aos 38 do segundo tempo.

Juiz: Marlon Mejía.

Cartões amarelos: Daniel Alves, Juárez, Salcido, Javier Hernández, Lucas Leiva.

Cartão vermelho: Daniel Alves.