terça-feira, 17 de janeiro de 2012

OS TIMES DOS SONHOS




Times de sonhos. E de pesadelos para os adversários.


Foram poucos, muito poucos nesses pouco mais de cem anos da história do futebol.


Claro, não dá para lembrar todos. Porque, mesmo que tenham sido poucos, há aqueles que ficam na memória como nuvens passageiras. Aqueles que conquistaram, num determinado momento, um título à força de superação, de entrega e de um raio momentâneo de genialidade coletiva.



E já deixamos no final do parágrafo anterior uma das palavras-chave da ideia de um time de sonhos: jogo coletivo. Porque futebol é isto: "association"! Vou, então, falar de alguns times que vi jogar, nos últimos 50 anos: o Santos de Pelé e companhia, nos anos sessenta; a seleção brasileira de 1970; a seleção holandesa de 1974; a seleção brasileira de 1982 (repetida em 1986) e, agora, o Barcelona.


Estabeleçamos um princípio: nenhum desses times (e nenhum outro que venha a se formar) é imbatível. Porque isso não existe em futebol.




Agora vejamos: o que todos eles têm em comum?


Primeiro: coletividade. Foram times que jogaram por música, construindo jogadas cujo brilho de alguns craques dependiam do jogo coletivo. Coletivo que depende de muito trabalho, de muito treino, de introjeção de um determinado esquema de jogo e de conhecimento perfeito de todos por todos. Entrosamento, enfim.




Segundo: todos esse times têm jogadores extremamente inteligentes. E falo, aqui, da inteligência de jogo, ou seja, um tipo de raciocínio rápido e de domínio tático do que seja um jogo de futebol. Desculpem os fãs ardorosos, mas cito o nosso Garrincha que, se não tinha um cérebro privilegiado para a vida, tinha-o para o futebol: seus dribles e passes provam o quanto ele tinha a noção do jogo. Como era extremamente hábil, podia se dar o luxo de ser individualista, até meio "fominha".






Terceiro: todos esses times têm jogadores com muita habilidade. Que se traduz na linguagem futebolística como "fundamentos". Não precisam ser craques, mas além do sentido do coletivo, além da inteligência futebolística (digamos assim), dominam os elementos básicos da profissão: controle da bola, colocação, passe, cabeceio etc.




Quarto: todos esses times têm dois ou mais craques. Ou seja, jogadores fora-de-série. O mínimo são dois, mas praticamente todos os times citados têm três ou mais. São jogadores que sabem o momento de quebrar o ritmo e a espinha do adversário, com jogadas improvisadas e geniais. Incomodam, mesmo quando muito marcados; mesmo quando não jogam bem; mesmo quando praticam o mesmo futebol de todos os outros. Porque o adversário os teme.




Quinto: todos esses times têm treinadores ousados, ou que estabelecem um esquema de jogo de acordo com as características dos jogadores. Além disso, são carismáticos o suficiente para treinar o time à exaustão dentro do esquema e inteligentes o suficiente para saberem que não podem prender nesse mesmo esquema os craques que têm à mão. Ou seja: sob rigidez de um esquema, abrem o caminho para a improvisação. E isso enlouquece os adversários.




Então, um time de sonhos é aquele que reúne numa conjunção que podemos chamar de "mágica", num só elenco, num só momento, todos esses elementos, e talvez até mais alguns, secundários, mas não menos importantes para que aquele time seja quase invencível, tais como: estrutura extra-campo, preparo físico adequado, ausência de estrelismos no elenco (a decantada "humildade"), união etc. etc. etc. Ah, sim: um time de futebol tem que ter 22 ou 23 jogadores, e não apenas 11.

Enfim: um time de sonhos é como uma sinfonia de Beethoven, um quadro de Picasso, um poema de Fernando Pessoa. Nunca mais teremos o Santos de Pelé; jamais apareceu outra "laranja mecânica"; e não há como reproduzir o futebol do Barcelona... Porque esses times são únicos, no tempo e no espaço que ocupam.

Embora inimitáveis, deixam, sim, lições: podem, e eu diria devem os outros times tentar fazer o que esses times fizeram, em termos de caminho percorrido, mas sempre buscando cada um o seu próprio estilo, o seu próprio esquema, o seu próprio jogo, enfim.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

POR ONDE ANDA O FUTEBOL BRASILEIRO?




Há muito tempo, já, que estou pensando em escrever este artigo. Aliás, mais do pensando, precisando de escrevê-lo. Pôr para fora algumas ideias e algumas preocupações.


O Campeonato Brasileiro terminou com um campeão que não honra nem um pouco a tradição do nosso futebol. O Corinthians - que me perdoem seus fanáticos torcedores - só ganhou por causa da incompetência dos seus adversários. Em várias rodadas, quando ele perdia e iria perder a liderança, seus adversários diretos também perdiam. E assim foi, até o empate vergonhoso com o Palmeiras, que tem um time de quinta categoria.


Nivelou-se por baixo, o Brasileirão. Poucos craques se destacaram, poucas partidas deixaram aquele gosto delicioso de ter visto um bom jogo. Grandes equipes resvalaram feio na segunda divisão e só não caíram porque, afinal, havia times piores. Nem vou citar nomes, para não compactuar com esse situação vergonhosa.


Depois, veio o vexame santista em Tóquio.


Está certo: o Barcelona é, no momento, praticamente invencível. Mas o time santista se apequenou, jogou amedrontado, não viu a cor da bola. Muito longe das tradições de equipes brasileiras ou do futebol brasileiro.


Porque tudo o que escrevi até agora só serve como introdução ao aspecto mais importante desse desabafo: por onde anda o futebol brasileiro?


Tudo o que se viu em 2011, nos gramados, foi uma sequência praticamente interminável de mau futebol, da qual não se salva nem mesmo o time de Mano Menezes.


E isso é extremamente preocupante: a dois anos da Copa do Mundo, aqui mesmo, no Brasil, não temos uma Seleção digna desse nome. Não temos um time com um esquema definido, com um padrão de jogo, nada.


Há alguns craques, sem dúvida. Andorinhas perdidas que não farão nenhum verão, nem conseguirão, isoladas, trazer resultados que satisfaçam o torcedor, muito menos com possibilidade de vencer a Copa.


O jogo de Tóquio não foi uma lição para o Santos - como muitos acharam, principalmente depois das declarações do Neymar - mas foi uma lição para todo o futebol brasileiro, principalmente para a Seleção.


Se não descobrirmos um bom esquema de jogo, se não treinarmos muito bem treinado esse esquema, se não revelarmos novos talentos e, principalmente, se não adaptarmos os novos talentos a um padrão de jogo que respeite, ao mesmo tempo, a tradição e o jeito de jogar brasileiros e ofereça algo de novo, não exatamente como o Barcelona, mas que possa competir em igualdade de condições com um padrão de jogo desse tipo, vamos ter sérias dificuldades na Copa do Mundo de 1914.


E o tempo urge: temos apenas um ano e meio para isso. E sem eliminatórias, que poderiam testar o time e o esquema.