segunda-feira, 18 de março de 2013

TENTANDO DECIFRAR O BARCELONA










Para os técnicos adversários, o Barcelona se parece com a esfinge: "DECIFRA-ME OU TE DEVORO".

E quase todos têm sido devorados. Impiedosamente. Pela máquina de jogar futebol chamada FC BARCELONA.

Não dá para explicar o futebol desse time, mas dá para termos algumas pistas que levem ao entendimento de como ele joga.

Primeiro, duas obviedades: a defesa é seu calcanhar de aquiles, ou seja, não tem uma defesa que se possa considerar que esteja no mesmo nível dos demais setores do time: os dois zagueiros, jogue quem jogar, fazem o chamado arroz-com-feijão e nada mais. Segunda obviedade: isso não tem muita importância para os resultados, pelos motivos que vamos tentar levantar a seguir.

O Barcelona joga em bloco. Isso também é óbvio. Ou seja, ataca com sete ou oito e, às vezes, todos os dez jogadores estão no campo adversário, inclusive os dois zagueiros, posicionados próximos ao círculo central, e se defende com onze: todos, absolutamente todos os jogadores do Barcelona estão aptos a defender, a roubar a bola do adversário, mesmo os atacantes de ofício que, mais impressionante, desarmam sem fazer as faltas que quase sempre os atacantes fazem quando partem para o desarme.

Esse é o primeiro nó górdio do sistema de jogo do Barcelona. Algo muito difícil de ser obtido. E fundamental para a equipe. Porque é essa capacidade de desarme que impede os contra-ataques adversários que, quando logram ocorrer, são quase sempre mortíferos.

Como fazer que atacantes e meio-campistas habilidosos também consigam jogar como zagueiros quase perfeitos? Vamos responder a essa e a outras questões logo abaixo.

O segundo nó górdio do sistema de jogo do Barcelona é a capacidade de atacar em bloco, trocando passes, sem afobação, até envolver completamente o adversário em seu próprio campo, de tal forma que, muitas vezes, vemos quatro ou cinco atacantes dentro da área adversária, sufocando o outro time, não deixando espaço para que ele jogue. Ou seja, o domínio territorial é fundamental para a equipe do Barcelona. E o time sabe fazer isso como nenhum outro na história do futebol. E quando perdem a bola,  recuperam-na de forma espantosa, rapidamente,  transformando-se todos em defensores avançados, através de um sistema de  marcação que o ataque exerce sobre a defesa adversária de forma quase automática. E quando recuperam a bola, o time adversário, que se colocava em posição de saída para o ataque, é surpreendido num contra-ataque rápido que quase sempre termina em gol.

O Barcelona inventou o contra-ataque a partir do ataque!

Mas, ainda há mais: atacado, coisa que é rara, mas acontece, claro, durante uma partida, logo se percebe que todos, absolutamente todos recuam para marcar. E como sabem desarmar sem fazer faltas, propiciam um grau de cobertura à defesa que nenhum outro time obtém. Além de, claro, estarem aptos a exercerem com perícia a mais antiga e mortífera arma do futebol: o contra-ataque, agora a partir da defesa, da forma mais tradicional. Eu disse tradicional? Nada é comum no Barça. Porque o contra-ataque conta com a excelência do passe, que todos eles têm, e com a rapidez dos deslocamentos, treinados como se fossem um balé da fórmula 1 com a precisão de acrobatas de circo.

Como e por que eles conseguem tudo isso? Calma, que já vamos tentar responder.

O terceiro nó górdio do Barcelona é também óbvio: a excelência de seus jogadores. Além de um fenômeno (nem preciso citar seu nome), há na equipe pelo menos quatro ou cinco jogadores fora de série, e os demais são craques ou bons jogadores, muito bons jogadores, mesmo os zagueiros e o goleiro, claro.

Como um time de futebol pode contar com tantas estrelas e ter ao mesmo tempo um jogo tão solidário, em que todos atacam e todos defendem?

Vamos tentar responder as questões levantadas. E as respostas não são, assim , tão difíceis. O difícil é que, ao tentar respondê-las, nós vamos chegar a algumas conclusões  que... espere, vamos deixar as conclusões para o final, não é?

Estrutura do clube. Dinheiro, claro. Mas não só: dinheiro e inteligência. Conta o Barcelona com uma verdadeira academia de revelação de talentos. Tanto que, do time geralmente titular, há apenas um jogador que não é formado totalmente nas bases (por acaso, um brasileiro, o Danel Alves). E a escola de bola do Barcelona parece ser bastante rigorosa em seus princípios, isto é, naquilo que um jovem jogador deve aprender para se tornar um craque, que consiste basicamente em:

1. conhecimento do jogo - parece-me que todos aprendem, e muito bem, primeiro as regras do jogo e como usá-las o tempo todo a seu favor e a favor da equipe; segundo, aprendem táticas de jogo, o que os leva a perceber o jogo do adversário e também tirar proveito disso em campo, quase independentemente do treinador;

2. treinamento dos fundamentos do futebol, aquilo que é básico, mas que nem todo técnico das bases consegue passar com clareza para seus pupilos: domínio de bola, dribles curtos, passe, deslocamentos, lançamentos, cobranças de falta, de escanteio e de laterais, posicionamento em campo etc, etc, etc;

3. senso do coletivo: não pode haver nenhum drible, nenhum deslocamento, nenhum passe, nada, que não seja pensado em termos de coletivo, em termos de relação com o companheiro de equipe, numa introspecção total do que seja conjunto, isto é, todo o talento individual - que, com certeza, é incentivado - deve estar subordinado de forma até meio franciscana (humilde - não gosto do termo, mas é o que parece mais próximo da realidade deles, dos jogadores do Barcelona) ao conjunto, ao objetivo do grupo;

4. treinamento, treinamento e treinamento: tenho a impressão que a repetição de esquemas, triangulações, deslocamentos, dribles, passes etc ocorre à exaustão (aliás, o ex-técnico Pep Guardiola ressaltou isso, uma vez); e mais: tenho a impressão de que o os treinos são coreografafos, como um balé, e repetidos até que aquilo que parece difícil se torne fácil, muito fácil, como o fazem os artistas de circo, de teatro, ou os atletas de alta performance; é só observar que os jogadores sempre sabem o que fazer com a bola, durante o jogo, tocam de primeira, driblam sempre de forma mais ou menos igual, e conduzem a bola sempre muito próxima do pé (detalhe que complica a marcação e que poucos jogadores fazem e para o qual poucos técnicos atentam);

5. preparação física e alimentação: dois itens que se interralacionam e são, embora óbvios, extremamente importantes para a boa preparação dos jogadores, inclusive com o respeito às características de cada um, e não com a finalidade de se tornarem todos gladiadores; basta observar que os jogadores mais hábeis não são tipos atléticos, altos, fortes; e isso é muito importante, porque impede que se machuquem com facilidade;

6. preparação psicológica, ou algo parecido: percebe-se que os jogadores do Barcelona não têm um desgaste físico tão grande quanto seus adversários (acredito que eles até corram menos, porque os deslocamentos são todos muito bem dosados e combinados), mas o desgaste mental, ou psicológico, deve ser formidável, devido a que esse estilo de jogo - de domínio territorial - exige um nível altíssimo de concentração o tempo todo; então, a recuperação da equipe, após os jogos, deve ser algo cuidadosamente planejado e executado, de alguma forma clara ou sutil.

A excelência do futebol apresentado pelo Barcelona está, portanto, ligada a uma série de detalhes que não são nem pouco pequenos nem menos importantes, que fazem a diferença entre um time comum e esse atual grupo de jogadores, reunidos por uma contingência da vida, por uma formação excelente, e por algo que tenho ressaltado em meus comentários: a inteligência. Dificilmente, esse sistema de jogo, com tudo o que foi exposto acima, conseguiria manter-se durante tanto tempo,se não contasse com um grupo de jogadores tão inteligentes para o futebol, como esses. Isso não quer dizer que, com a substituição das "peças", coisa que o tempo obriga a fazer, o Barcelona não consiga manter um excelente futebol. Outra geração poderá até manter um nível alto, mas vai difícil fazer exatamente a atual geração faz e joga hoje.

Enfim, há um último e fundamental "detalhe": é um time que joga junto há muito tempo, tempo demais em termos de futebol, quando vemos as equipes de sucesso se desfazerem de um campeonato para outro e se remontarem até mesmo, como acontece no Brasil, entre um turno e outro de um mesmo certame.

Conclusão: o FC Barcelona não é, absolutamente imbatível (tem perdido alguns jogos importantes e até para times de menos categoria), porque o futebol é o único dos esportes coletivos em que ocorrem "zebras", isto é, times de pouca expressão às vezes conseguem ganhar de equipes poderosas e porque há desgaste e desfastio e má fase (toda equipe passa por isso) e porque, de vez em quando, um técnico adversário vai conseguir anular o Barcelona taticamente e porque não existiram, não existem e, felizmente, nunca vão existir equipes imbatíveis. Mas ganhar do atual Barcelona é dificil, muito difícil.

Os poucos que o conseguem ou conseguirem não ser triturados e devorados  que comemorem bastante!